Viver numa torre com dois quilómetros de altura? Moradores vão ter “sensação de total alienação do mundo”

Fundo de Investimento Público, que investe os lucros do petróleo e é liderado pelo príncipe Mohammad Bin Salman, contratou o atelier de Norman Foster para idealizar uma torre de 2 quilómetros a ser construída no norte de Riade: o projeto tem já um orçamento de 4,62 mil milhões de euros

Francisco Laranjeira
Março 31, 2024
13:00

Numa casa localizada no 320º andar, a um quilómetro de altura, como é a vida?

Não existe atualmente no mundo ninguém nessas condições: o Burj Khalifa, no Dubai, o edifício mais alto do planeta desde 2014, tem 828 metros mas só é habitado até aos 584 metros, no 163º andar. O que se segue são andares ocupados por máquinas e uma antena que se estende um pouco hiperbolicamente.

No entanto, há dois projetos na Arábia Saudita que vão elevar a fasquia: a Torre de Jeddah foi planeada em 2011 para atingir uma altura de 1,6 quilómetros (a milha simbólica de um famoso arranha-céu utópico de Frank Lloyd Wright na década de 1950), mas ‘encolheu’ para mil metros sob a direção dos geólogos, que analisaram o terreno. As obras começaram em 2014 e foram suspensas aos 390 metros em 2017, quando o seu promotor, o príncipe Bin Talal, caiu em desgraça com o Governo saudita e ficou sem crédito – no entanto, a construção ganhou novo fôlego em 2023.

Mas nesta ‘competição’ nas alturas, as notícias mais extravagantes chegaram de Riade: o Fundo de Investimento Público, que investe os lucros do petróleo e é liderado pelo príncipe Mohammad Bin Salman, contratou o atelier de Norman Foster para idealizar uma torre de 2 quilómetros a ser construída no norte de Riade: o projeto tem já um orçamento de 4,62 mil milhões de euros.

No Burj Khalifa existem andares inteiros de escritórios e apartamentos que nunca foram habitados, lembrou o jornal espanhol ‘El Mundo’, mas não parece que este seja um facto muito relevante. Os miradouros e restaurantes para turistas cumprem a sua função e rendem dinheiro, enquanto o nome do prédio é conhecido no mundo todo. Não ao nível da Torre Eiffel, mas mais do que qualquer outro edifício do século XXI.

Mas qual é a necessidade desta corrida? “A minha intuição é que, antes de mais, existe um estatuto social em viver física e metaforicamente acima dos outros. Em segundo lugar, aqueles modos de vida que prometem uma forma de bem-estar, de fuga ao congestionamento, à poluição e ao crime que estão frequentemente associados ao nível das ruas. E em terceiro lugar, esta emoção de ver o mundo de cima”, salientou Andrew Harris, professor de Estudos Urbanos e Geografia na University College London.

“É uma situação curiosa: muitos ultra-ricos hoje parecem querer viver no topo da cidade, mesmo que isso exija muitas despesas adicionais. Mas não devemos tratar este desejo como algo radicalmente novo. As novas alturas e formas são certamente uma característica dos arranha-céus do século XXI, mas existem precedentes importantes. Até o início do século XX, o melhor lugar para se viver era o chão e não o topo. Depois tudo mudou por causa da tecnologia.”

Mas uma torre de dois quilómetros levaram a análises geopolíticas: perante um futuro em que os hidrocarbonetos deixarão de ser uma riqueza infinita para a Arábia Saudita e os seus vizinhos, a ideia das suas elites é converter as suas cidades em enclaves de vida livre para os multimilionários do planeta.

O que falta considerar é como pode ser a vida num edifício com estas características. O que fazer com um prédio de dois quilómetros de altura? “que se prevê é que o primeiro terço do edifício seja dedicado a escritórios e usos comerciais, o segundo terço a residências e hotéis e que o terceiro não tenha muitas outras utilizações além de miradouros e alguns serviços técnicos”, explicou Eduardo Prieto, arquiteto e professor da Universidade Politécnica de Madrid.

Os pisos térreos do edifício, com vãos muito profundos e sem pátios interiores, só podiam funcionar para albergar escritórios ou centros comerciais. Quando o edifício subisse e se tornasse mais estreito, os escritórios desapareceriam e surgiriam as casas, porque na Arábia Saudita não há e nunca haverá procura de tantos espaços de escritórios. Na verdade, em todo o mundo, as torres de escritórios já estão a ser esvaziadas e recicladas em edifícios residenciais. Nos últimos anos, as grandes empresas de tecnologia têm preferido criar as suas sedes em edifícios horizontais e discretos.

No Burj Khalifa existem 900 apartamentos entre o 19º e o 77º andar, descritos em alguns relatórios como “bem desenhados nos detalhes, mas um pouco cavernosos”. Mas o projeto em Riade desafia a lógica: só para os deslocamentos verticais, sair de casa, ir à rua e voltar para casa, pode demorar, mesmo com os elevadores mais rápidos, 30 minutos, com múltiplas transferências. É este tempo que coloca ‘a necessidade’: quem vive numa torre de dois quilómetros quer viver fora do mundo.

Por exemplo, no 320º andar, as janelas não podem ser abertas, para evitar alterações de pressão que quebrem a pressurização constante que terá de ser promovida, como nos aviões. “A alienação do mundo seria total. Nem tenho certeza se as visualizações valem a pena. A 200 metros acima do nível do mar dá para ver a cidade, mas a um quilómetro e meio só se vê neblina e nuvens, não dá para ver as pessoas na rua”, afirmou Eduardo Prieto.

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