Portugal está entre os países europeus onde as vendas de veículos 100% elétricos mais crescem, aproximando-se de mercados tradicionalmente líderes como os países nórdicos. No entanto, este dinamismo comercial contrasta com uma rede de carregamento considerada insuficiente, colocando em risco a sustentabilidade do crescimento da mobilidade elétrica no país.
O alerta foi deixado pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP), citado pelo ‘Jornal de Negócios’, que considera que o ritmo de expansão das infraestruturas está bem abaixo da média europeia, num contexto em que as vendas de automóveis eletrificados continuam a acelerar. “Começa a ser grave”, frisou o líder da ACAP.
Crescimento recorde dos elétricos no mercado nacional
Num ano de crescimento do mercado automóvel, com mais de 225 mil ligeiros de passageiros vendidos, os veículos que recorrem a combustíveis alternativos foram o principal motor da subida. Os automóveis 100% elétricos destacaram-se de forma particular.
“Tem havido um crescimento enorme, com ênfase a partir de 2023. Em 2025 passámos as 50 mil unidades”, afirmou Sérgio Ribeiro, presidente da ACAP. Este desempenho coloca Portugal no sexto lugar da Europa em vendas de veículos 100% elétricos, acima da média da União Europeia e também de Espanha. Segundo a associação, o país apresenta atualmente níveis de penetração comparáveis aos mercados nórdicos.
Infraestruturas abaixo da média europeia
Apesar do crescimento acelerado das vendas, a rede de carregamento não acompanhou a mesma trajetória. Na comparação europeia, Portugal surge claramente abaixo da média no rácio de postos de carregamento por habitante.
De acordo com dados apresentados pela ACAP, Portugal dispõe de 1,1 postos de carregamento por mil habitantes, quando a média da União Europeia se situa nos dois postos por mil habitantes.
“O esforço para a criação de infraestruturas está bem abaixo” dos restantes países europeus, alertou Sérgio Ribeiro, acrescentando que esta situação “começa a ser grave” tendo em conta o crescimento das vendas de veículos eletrificados
Falta de política clara e entraves burocráticos
A associação aponta ainda a ausência de uma estratégia governamental clara para responder ao défice de infraestruturas. Segundo Sérgio Ribeiro, a indústria automóvel tem acompanhado os objetivos políticos, mas enfrenta limitações externas.
“Continua a não haver uma política clara do Governo para resolver este problema. A indústria automóvel tem feito o seu trabalho, mas está limitada na prossecução dos objetivos políticos pelas burocracias”, afirmou.
Rede desequilibrada entre litoral e interior
O vice-presidente da ACAP, Pedro Lazarino, defendeu a necessidade de uma rede mais ampla e equilibrada, sublinhando que a anunciada liberalização do setor pode ser um passo positivo. Ainda assim, alertou para o risco de concentração excessiva no litoral.
“O interior continua claramente desfavorecido”, sublinhou, defendendo incentivos diretos às autarquias para promover a eletrificação local.
Uma das propostas passa por condicionar a distribuição da receita do Imposto Único de Circulação (IUC) à implementação de políticas locais de eletrificação, criando um incentivo financeiro direto.
Concessionários como peça-chave da solução
Já Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, destacou o papel que os concessionários automóveis podem desempenhar na expansão da rede, dada a sua capilaridade territorial.
Defendeu que o Fundo Ambiental deveria criar apoios específicos para a instalação de postos de carregamento nos concessionários, contribuindo para uma cobertura mais homogénea do território.
O cenário traçado pela ACAP aponta para um desalinhamento crescente entre procura e infraestrutura. Portugal lidera no ritmo de adoção de veículos elétricos, mas arrisca travar essa trajetória se não acelerar rapidamente o investimento e a simplificação regulatória na rede de carregamento.














