A tensão entre os EUA e a Europa voltou a subir de tom, desta vez com a Gronelândia como epicentro simbólico de um conflito mais profundo. A insistência de Donald Trump na aquisição da vasta ilha gelada, acompanhada da ameaça de impor novas tarifas de 10% aos países europeus que se lhe oponham, expôs novamente os limites da estratégia conciliatória europeia. Segundo o ‘El Economista’, cresce agora o debate sobre se o Velho Continente deverá finalmente responder com firmeza — mesmo que isso implique recorrer a instrumentos de enorme impacto.
Enquanto os líderes europeus discutem possíveis represálias comerciais, incluindo a ativação do Instrumento Anticoerção da União Europeia, há uma opção muito mais poderosa em cima da mesa. Trata-se de uma arma financeira avaliada entre 8 e 12 biliões de dólares, conhecida nos mercados como “Sell America”, uma expressão que ganhou notoriedade quando Trump intensificou, no ano passado, as ameaças tarifárias contra aliados e rivais.
O que significa “vender a América”
O conceito refere-se a uma eventual retirada de capital europeu dos ativos americanos, incluindo ações de grandes empresas tecnológicas e títulos do Tesouro dos Estados Unidos. De acordo com o ‘El Economista’, os países europeus detêm cerca de 40% de toda a dívida pública americana em mãos estrangeiras. Excluindo o Reino Unido, os maiores detentores na Europa continental são Bélgica, Luxemburgo, França e Irlanda.
Esta exposição resulta de anos de excedentes externos acumulados pela União Europeia, que se traduziram numa posição líquida positiva de investimento internacional. Na prática, milhões de europeus possuem, direta ou indiretamente, ativos americanos, financiando tanto as empresas como o Estado dos EUA a custos mais baixos do que seriam possíveis sem esse fluxo de capital.
A vulnerabilidade estrutural dos Estados Unidos
O debate ganhou força após a divulgação de dados sobre a Posição de Investimento Internacional Líquida dos Estados Unidos, que apresenta um défice de cerca de 27 triliões de dólares. Quanto mais negativa esta posição, maior a dependência do financiamento externo — uma fragilidade que tem sido atenuada, historicamente, pelo estatuto privilegiado do dólar como principal moeda de reserva mundial.
No entanto, segundo o ‘El Economista’, a erosão gradual da confiança no dólar, aliada às estratégias de diversificação levadas a cabo por países como a China e a Rússia, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desse privilégio a longo prazo. Neste contexto, a ideia de uma “militarização do capital” europeu passou a ser discutida abertamente por responsáveis e analistas.
George Saravelos, economista do Deutsche Bank, sublinha que a Europa é simultaneamente proprietária da Gronelândia e o maior credor dos Estados Unidos. Segundo o especialista, os países europeus detêm pelo menos oito biliões de dólares em ações e títulos americanos, quase o dobro do montante detido pelo resto do mundo em conjunto. Para Saravelos, esta interdependência coloca uma questão central: por que razão a Europa continua disposta a desempenhar este papel num contexto de crescente hostilidade geopolítica?
Porque é improvável que a Europa avance
Apesar do impacto potencial, a maioria dos analistas considera altamente improvável que a Europa avance com uma estratégia concertada de venda de ativos americanos. A razão é simples: a maior parte desses investimentos está nas mãos de fundos privados, fora do controlo direto dos Governos, e uma venda em massa poderia causar prejuízos significativos aos próprios investidores europeus.
Como explica Chris Turner, estratega cambial do ING, grande parte do aumento recente das obrigações externas dos EUA resulta da valorização dos ativos americanos, o que continua a atrair capital europeu. Enquanto essa perspetiva de rentabilidade se mantiver, não há incentivos suficientes para uma retirada significativa de fundos.
Mesmo os economistas que reconhecem o peso financeiro da Europa admitem que o poder político para forçar um desinvestimento é muito limitado. A União Europeia poderia, no máximo, tentar incentivar o investimento em ativos denominados em euros, mas não impor uma saída coordenada dos mercados americanos.
Dependência estratégica e limites políticos
A Capital Economics partilha deste ceticismo, salientando que, sem uma diretiva clara dos Governos, os gestores de fundos continuarão a privilegiar o retorno financeiro. Além disso, qualquer venda em larga escala poderia ser neutralizada por intervenções da Reserva Federal dos EUA, reduzindo o impacto nos mercados.
Para vários analistas, o fator decisivo continua a ser geopolítico. Apesar das tensões, a Europa mantém uma forte dependência dos Estados Unidos em áreas como a segurança e o apoio à Ucrânia. Segundo o ‘El Economista’, esta realidade explica por que razão Bruxelas tem evitado confrontos diretos com Trump desde o seu regresso ao poder.
Ainda assim, há quem veja na crise da Gronelândia um possível ponto de viragem. Tal como o discurso americano na Conferência de Segurança de Munique acelerou os gastos europeus em defesa, alguns estrategas questionam se este novo choque poderá catalisar uma maior coesão política no seio da União Europeia.
Por agora, a “arma” financeira existe — mas permanece guardada. O simples facto de ser discutida já revela, contudo, que a paciência europeia poderá estar a aproximar-se do limite.













