“Vamos ter de usar pombos-correios”: Tropas da Rússia desesperam sem Telegram nem Starlink

As forças russas destacadas na linha da frente na Ucrânia enfrentam sérias dificuldades de coordenação depois de o serviço de mensagens Telegram ter sido fortemente condicionado em todo o território russo e de vários terminais de internet Starlink terem deixado de funcionar.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 11, 2026
18:38

As forças russas destacadas na linha da frente na Ucrânia enfrentam sérias dificuldades de coordenação depois de o serviço de mensagens Telegram ter sido fortemente condicionado em todo o território russo e de vários terminais de internet Starlink terem deixado de funcionar, um duplo golpe tecnológico que está a comprometer comunicações operacionais, logística e até a segurança das próprias tropas.

O cenário está a gerar alarme entre militares, voluntários e bloguers pró-Kremlin, que relatam unidades praticamente isoladas e incapazes de trocar informações em tempo real. Um dos relatos mais citados surgiu do propagandista russo Ivan Utenkov, que descreveu a situação de forma crua: “A frente está em choque… os Starlinks estão mortos, o Telegram está bloqueado — como é que devemos combater? Com pombos?”

Utilizadores russos denunciaram falhas generalizadas no Telegram durante pelo menos dois dias consecutivos, com o portal Downdetector a registar mais de 11 mil queixas num período de 24 horas. A agência estatal Roskomnadzor, responsável pela censura e regulação das comunicações, terá iniciado um abrandamento deliberado do funcionamento da aplicação em todo o país.

Criado pelo empresário russo Pavel Durov, o Telegram é amplamente utilizado na Rússia e na Europa de Leste, incluindo para fins militares informais, segundo vários intervenientes no terreno.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, tentou minimizar o impacto, afirmando aos jornalistas que é improvável que o Telegram seja um instrumento central para as comunicações militares. “Não creio que seja concebível que a comunicação na linha da frente seja feita via Telegram ou qualquer outro mensageiro. É difícil de imaginar e impossível… os especialistas é que devem falar sobre isso”, declarou.

Militares contradizem o Kremlin
A versão oficial foi rapidamente contestada por combatentes e voluntários envolvidos no esforço de guerra. Um voluntário identificado como “Thirteenth” reagiu diretamente às declarações de Peskov, argumentando que a aplicação é, na prática, essencial.

“Caro Dmitry Sergeyevich [Peskov], como militar e participante na operação militar especial, vou dizer a verdade. Muitas vezes, não só a comunicação e o comando de batalha, mas também a logística, a recolha e a entrega de ajuda humanitária são feitas através do Telegram”, escreveu.

O mesmo voluntário sublinhou ainda que o uso da plataforma vai além das mensagens básicas: “E isso sem contar com uma variedade de outras tarefas; por vezes, até os ajustes de fogo de artilharia são feitos através do Telegram. Essencialmente, bloquear o Telegram é como dar um tiro no próprio pé.”

Desde agosto de 2025, as autoridades russas já tinham imposto bloqueios parciais a chamadas no Telegram e no WhatsApp, alegando razões de segurança nacional. Legisladores justificaram as restrições dizendo que os canais não estavam a remover “todo o tipo de disparates” e que poderiam ser usados para recrutamento de sabotadores ou atividades terroristas.

O agravamento das falhas tecnológicas desencadeou uma onda de críticas nas redes pró-governo. O mesmo voluntário voltou a atacar a Roskomnadzor: “A Roskomnadzor é cúmplice do inimigo… Proíbam o Telegram, e depois acho que teremos de usar pombos-correio para fins militares. A ajuda humanitária vai desaparecer, e isso são vidas de soldados.”

Outro utilizador, identificado como Mikhail, acusou diretamente as autoridades de prejudicar o esforço de guerra, escrevendo que o regulador “está deliberadamente a sabotar a operação militar especial”.

Starlink agrava o isolamento no terreno
A situação complicou-se ainda mais com falhas nos terminais Starlink utilizados por forças russas em várias zonas ocupadas do leste e sul da Ucrânia.

De acordo com relatos de partisans pró-ucranianos, diversas unidades russas ficaram incapazes de comunicar, deixando comandantes sem capacidade de coordenar movimentos ou pedidos de apoio. Em alguns casos, os canais alternativos também falharam e os próprios sistemas de guerra eletrónica russos terão interferido nas comunicações internas.

Um episódio em Zaporizhzhia terá resultado na morte de 12 militares russos em consequência de fogo amigo, alegadamente provocado por falhas de coordenação.

As interrupções surgem depois de a SpaceX ter decidido desativar terminais Starlink utilizados por forças russas, cortando o acesso à internet ao longo de cerca de 1.000 quilómetros da linha da frente.

O especialista ucraniano em guerra eletrónica Serhiy “Flash” Beskrestnov afirmou que quase todas as unidades russas dependentes do sistema perderam a capacidade de transmitir dados seguros, deixando os comandantes sem meios para sincronizar ataques.

O movimento partidário ucraniano Atesh resumiu o impacto das falhas com um aviso direto: “Sem comunicações estáveis na linha da frente, começa o caos. A dependência da Rússia de tecnologia civil virou-se contra si. Quando as comunicações desaparecem, o comando colapsa e as tropas começam a destruir-se entre si.”

Também o jornalista e veterano da frente Yuri Butusov ironizou a situação, afirmando que, depois do Telegram e do Starlink, “a Rússia vai cortar a internet. Assim, dirão menos disparates”.

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