O mapa das alianças militares no Médio Oriente está a sofrer transformações aceleradas, impulsionadas por guerras regionais, instabilidade geopolítica e uma crescente desconfiança em relação aos Estados Unidos enquanto garante de segurança. Os mais recentes desenvolvimentos envolvem Arábia Saudita, Paquistão e Turquia e levantam a hipótese de uma nova arquitetura de defesa conjunta entre potências maioritariamente sunitas, num contexto de conflito aberto em Gaza, no Iémen e noutras frentes da região.
Segundo uma investigação revelada pela agência Bloomberg, Riade e Islamabad assinaram em setembro um acordo formal de defesa mútua que prevê que “qualquer agressão” contra um dos países seja considerada um ataque contra todos, numa cláusula comparável ao Artigo 5.º da NATO. De acordo com fontes citadas pela Bloomberg como “pessoas familiarizadas com o assunto”, a Turquia encontra-se em negociações avançadas para aderir a este pacto, num processo que poderá alterar profundamente os equilíbrios estratégicos regionais.
Os sinais de aproximação entre Ancara e Riade tornaram-se visíveis no início de janeiro, quando uma delegação militar saudita de alto nível se deslocou à capital turca. O Ministério da Defesa da Turquia confirmou que o Quartel-General do Comando das Forças Navais acolheu “a primeira Reunião de Coordenação de Cooperação das Forças Navais da Turquia e da Arábia Saudita”, num gesto simbólico após anos de desconfiança mútua, durante os quais ambos os países apoiaram frequentemente facões rivais em vários conflitos no Médio Oriente.
De acordo com analistas citados, a convergência de interesses entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão tem sido acelerada pelas guerras em Gaza e no Iémen, pelos ataques israelitas — e também norte-americanos — em vários pontos da região, pela crescente instabilidade global e pela crise no Irão, que poderá desencadear um efeito dominó com milhões de refugiados. Para além disso, cresce a perceção de que Washington já não é um parceiro totalmente fiável. “À medida que os Estados Unidos priorizam os seus próprios interesses e os de Israel, estas dinâmicas estão a levar estes países a desenvolver novos mecanismos para identificar amigos e adversários”, afirma Nihat Ali Özcan, analista estratégico do ‘think tank’ turco TEPAV, sublinhando que cada parceiro aportaria capacidades distintas: músculo financeiro saudita, dissuasão nuclear e tropas paquistanesas e experiência militar e indústria de defesa avançada por parte da Turquia.
A componente nuclear surge como um dos elementos centrais desta equação. Sinan Ülgen, ex-diplomata turco e director do Centro de Estudos de Economia e Política Externa (EDAM), considera que “a razão mais plausível” para o interesse turco reside na dissuasão nuclear do Paquistão, numa altura em que crescem dúvidas sobre a credibilidade da proteção nuclear norte-americana. Ainda assim, o próprio Ülgen manifesta ceticismo quanto à adesão formal de Ancara a um pacto de defesa mútua, lembrando que a Turquia é membro da NATO e alertando para os riscos de envolvimento em conflitos regionais sem um inimigo comum claramente definido.
Paralelamente, Riade está também a ultimar uma segunda iniciativa estratégica: uma coligação militar com a Somália e o Egipto, destinada a conter a crescente influência dos Emirados Árabes Unidos no Mar Vermelho. Segundo a Bloomberg, o Presidente somali deverá deslocar-se em breve à Arábia Saudita para formalizar o acordo, depois de Mogadíscio ter cancelado todos os entendimentos de segurança com Abu Dabi, acusando os serviços secretos emiratis de violarem a soberania do país. O Egipto, aliado-chave da Somália e adversário dos EAU em teatros como a Líbia e o Sudão, integra também esta frente.
A Turquia, embora não possa integrar esta coligação por razões geográficas, é um dos principais apoios externos da Somália, onde mantém tropas de pacificação, e partilha com Riade e o Cairo o interesse na estabilização do país. Contudo, Ancara procura equilibrar cuidadosamente as suas relações com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Para a analista Gönul Tol, do Instituto do Médio Oriente, mesmo com a possível participação turca, o pacto saudita-paquistanês dificilmente se transformará numa verdadeira “OTAN muçulmana”, devendo ser entendido sobretudo como “um sinal político de solidariedade muçulmana” face ao que estes países consideram ações cada vez mais desestabilizadoras de Israel.
Embora seja difícil identificar adversários comuns claros para todas estas potências, os desenvolvimentos recentes mostram que os países envolvidos estão a redefinir ameaças, interesses e alianças num Médio Oriente em rápida mutação. A emergência simultânea de dois eixos de cooperação militar entre países muçulmanos evidencia a profundidade das mudanças estratégicas em curso e sinaliza um reposicionamento regional que confirma que o Médio Oriente já não é o mesmo.














