Em 1 de dezembro de 2024, Kaja Kallas assumiu o cargo de alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, tornando-se a mais alta diplomata do bloco num período de complexidade geopolítica sem precedentes. Com uma reputação de firme oposicionista à Rússia, Kallas traz para o cargo uma abordagem franca e uma carreira marcada por confrontos estratégicos e políticos ousados, como o embate que teve com Angela Merkel em 2021.
Em junho de 2021, apenas cinco meses após iniciar o mandato como primeira-ministra da Estónia, Kallas enfrentou diretamente Angela Merkel numa reunião do Conselho Europeu. Merkel, então chanceler da Alemanha, propunha um encontro com Vladimir Putin, uma ideia apoiada por Emmanuel Macron. Kallas, porém, opôs-se veementemente, questionando: “Um encontro para quê? Putin não pode ser confiado, nem acomodado.” Segundo diplomatas presentes, o confronto levou Merkel a abandonar o plano, marcando a presença da jovem líder estoniana num cenário dominado por gigantes políticos.
O desafio de liderar 27 nações
Agora como alta representante, Kallas enfrenta o desafio de coordenar os interesses dos 27 Estados-membros da UE, num cargo frequentemente limitado por vetos nacionais e pela falta de consenso. Reconhecida como uma das vozes mais firmes contra a Rússia, terá de ultrapassar a perceção de que é uma líder monotemática.
Para Kaja Kallas, as expectativas são baixas, dado o legado irregular do seu antecessor, Josep Borrell. O diplomata espanhol enfrentou críticas pela sua abordagem inconsistente, incluindo uma polémica conferência de imprensa em Moscovo, onde foi humilhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo.
No entanto, diplomatas europeus, que falaram anonimamente ao Politico, manifestam esperança na nova alta representante. “Kallas será um sopro de ar fresco”, afirmou um ministro dos Negócios Estrangeiros da Europa Ocidental, referindo-se à sua capacidade de dinamizar debates estratégicos.
As raízes políticas e ideais firmes
A ligação de Kallas à política é intrínseca. O seu bisavô, Eduard Alver, liderou a Liga de Defesa da Estónia na luta contra o Exército Vermelho na Guerra de Independência (1918-1920). Durante a ocupação soviética, a sua família sofreu profundamente: o avô foi enviado para um campo de prisioneiros e a mãe, ainda bebé, deportada para a Sibéria.
Após a queda da União Soviética, o seu pai, Siim Kallas, tornou-se ministro dos Negócios Estrangeiros e mais tarde primeiro-ministro da Estónia, antes de servir como comissário europeu. Apesar desse legado, Kaja optou inicialmente por uma carreira na advocacia, especializando-se em direito da concorrência, uma área então dominada por homens.
“Ela queria construir a sua própria carreira, sem depender do nosso pai”, relembrou Ülo Kallas, o irmão mais velho. No entanto, a política acabou por atrair Kaja, que foi eleita para o parlamento estoniano em 2011 e para o Parlamento Europeu em 2014.
A adversária de Putin
Desde o início da invasão russa à Ucrânia, em 2022, Kallas tornou-se uma das mais vocais defensoras de uma postura dura contra Moscovo. “Putin vai testar-nos, e teremos de resistir”, disse ao Parlamento Europeu duas semanas após o início do conflito.
Sob a sua liderança, a Estónia estabeleceu metas concretas de apoio à Ucrânia, como a defesa de um objetivo da UE de enviar um milhão de munições para Kyiv e a utilização de bens russos congelados para a reconstrução do país. A Estónia também investiu mais de 3% do PIB em defesa desde o início da guerra, muito acima da meta da NATO.
Kallas foi incluída numa lista negra do Kremlin em 2023, uma medida que descreveu como “prova de que estou no caminho certo”.
O novo cargo traz consigo restrições. Como chefe do Serviço Europeu para a Ação Externa, Kallas terá de lidar com interesses divergentes, incluindo líderes pró-Rússia, como Viktor Orbán, da Hungria. Contudo, a sua capacidade de confrontar diretamente figuras influentes já foi demonstrada, como num recente encontro da NATO, onde criticou Orbán por se opor à entrada da Ucrânia na aliança.
O futuro da diplomacia europeia
Apesar das dificuldades, aliados acreditam que Kallas tem a visão e a experiência necessárias para o cargo, sendo a primeira alta representante com experiência como chefe de governo. A sua abordagem assertiva já se reflete nas ações iniciais: visitou Kyiv na sua primeira semana no cargo e afirmou que a UE quer que a Ucrânia vença a guerra.
No entanto, desafios permanecem, desde divergências internas na UE até à imprevisibilidade da política externa americana sob uma possível nova administração Trump. “O mundo está em chamas”, disse Kallas durante a sua audição para o cargo. “Temos de permanecer unidos.”
O tempo dirá se Kallas conseguirá transformar o papel de alta representante numa verdadeira plataforma de liderança global ou se enfrentará os mesmos obstáculos que os seus antecessores. Uma coisa é certa: a líder estoniana não se afastará de confrontos estratégicos, nem hesitará em fazer ouvir a sua voz.














