Um “tsunami lento” ameaça o Sul Global: mais de 100 milhões de edifícios em risco devido à subida do nível do mar

Um novo e abrangente estudo liderado pela Universidade McGill, no Canadá, revelou um cenário alarmante: mais de 100 milhões de edifícios situados em África, no Sudeste Asiático e na América Central e do Sul poderão ser engolidos por inundações nas próximas décadas, se não houver uma redução drástica e imediata nas emissões de combustíveis fósseis.

Pedro Gonçalves
Outubro 18, 2025
11:00

Um novo e abrangente estudo liderado pela Universidade McGill, no Canadá, revelou um cenário alarmante: mais de 100 milhões de edifícios situados em África, no Sudeste Asiático e na América Central e do Sul poderão ser engolidos por inundações nas próximas décadas, se não houver uma redução drástica e imediata nas emissões de combustíveis fósseis.

O trabalho, publicado na revista científica Nature Urban Sustainability (2025), vai muito além das projeções estatísticas habituais. Trata-se da primeira avaliação global, realizada edifício a edifício, baseada em mapas de satélite de alta resolução e dados topográficos detalhados, que permite estimar com precisão os impactos do aumento do nível do mar em diferentes escalas temporais.

Um “tsunami lento”, mas imparável
Para Natalya Gómez, coautora do estudo, o fenómeno é uma consequência “lenta, mas implacável” do aquecimento global. “Costuma dizer-se que o nível do mar subirá decenas de centímetros, ou talvez um metro, mas na realidade poderá continuar a subir vários metros se não travarmos rapidamente a queima de combustíveis fósseis”, alertou a investigadora.

O estudo analisou cenários com aumentos entre 0,5 e 20 metros no nível médio das águas. Mesmo no caso mais otimista — um aumento de apenas meio metro, considerado já inevitável — cerca de três milhões de edifícios ficariam submersos. Esse é o “preço mínimo”, segundo os autores, por décadas de inação climática. No cenário mais extremo, com subidas superiores a cinco metros, o número de estruturas afetadas ultrapassaria os 100 milhões, abrangendo desde zonas residenciais e infraestruturas críticas até locais de património cultural de valor incalculável.

As regiões mais vulneráveis
As zonas de maior risco concentram-se no Sudeste Asiático, onde megacidades como Jacarta — que já está a afundar — e Banguecoque enfrentam ameaças severas. Em África, portos estratégicos como Lagos, na Nigéria, e Mombaça, no Quénia, encontram-se entre os mais expostos. Na América do Sul, os riscos estendem-se às áreas costeiras baixas que acolhem infraestruturas energéticas e portuárias vitais, incluindo regiões do Brasil e do Peru.

Jeff Cardille, também coautor do estudo, explicou que “alguns países costeiros estão muito mais expostos que outros, devido à topografia das suas costas e à localização das construções”. Um aumento aparentemente pequeno, “de apenas um metro”, pode inundar milhares de quilómetros quadrados em deltas fluviais, enquanto áreas com falésias elevadas podem resistir melhor à subida das águas.

Impacto global e efeito dominó
O investigador Eric Galbraith salientou que as consequências não se restringem às regiões costeiras. “Todos dependemos de bens, alimentos e combustíveis que passam por portos e infraestruturas costeiras expostas à subida do nível do mar. A perturbação dessas redes pode causar estragos nas economias e nos sistemas alimentares globalmente interligados”, afirmou.

O relatório descreve um potencial “efeito dominó” mundial: se portos como o de El Callao, no Peru, ou refinarias como a de Durban, na África do Sul, sofrerem interrupções recorrentes devido a inundações, a cadeia global de abastecimento poderá colapsar. As consequências fariam-se sentir muito para além das zonas costeiras, influenciando preços e disponibilidade de produtos até em cidades como Madrid, Munique ou Chicago.

A dívida climática do Hemisfério Sul
Embora o Hemisfério Norte se esteja a aquecer mais rapidamente, é o Sul Global — um termo que agrupa mais de 170 países em desenvolvimento — que pagará o preço mais elevado. A sua vulnerabilidade resulta da combinação entre menores recursos para adaptação, topografia costeira mais exposta e maior dependência de setores económicos sensíveis ao clima.

A complexidade da circulação oceânica e a maior extensão de massas de água no Hemisfério Sul contribuem para que os fenómenos climáticos extremos sejam mais intensos e imprevisíveis. Segundo o estudo, esta desigualdade ambiental agrava a chamada “dívida climática” histórica, em que os países menos responsáveis pelas emissões são os que mais sofrem os seus efeitos.

Consenso científico e previsões de longo prazo
As conclusões da Universidade McGill estão em consonância com o consenso global delineado pelo Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), das Nações Unidas. Mesmo que os objetivos do Acordo de Paris sejam cumpridos, o aumento do nível do mar continuará durante séculos devido à chamada “inércia térmica” do planeta.

Os oceanos demoram milhares de anos a expandir-se e as grandes camadas de gelo da Antártida e da Gronelândia respondem lentamente ao aquecimento. De acordo com o IPCC, um aumento de temperatura entre 2 ºC e 3 ºC poderá desencadear o derretimento quase total dessas massas de gelo ao longo de milénios, elevando o nível do mar em vários metros. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estima que os prejuízos anuais causados por inundações ascendam a milhares de milhões de euros já na próxima década.

Planeamento e adaptação
Para apoiar as políticas de adaptação, os investigadores disponibilizaram um mapa interativo no Google Earth Engine, que permite identificar com precisão milimétrica as zonas mais ameaçadas. Essa ferramenta servirá de base para o planeamento urbano e costeiro, incluindo medidas de proteção, reconfiguração do uso do solo e, em casos extremos, a gestão de retiradas inevitáveis.

Maya Willard-Stepan, autora principal do estudo, concluiu com uma mensagem clara: “Não há escapatória, pelo menos não a um aumento moderado do nível do mar. Quanto mais cedo as comunidades costeiras começarem a planear, maiores serão as suas hipóteses de continuar a prosperar”.

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