Quase um quarto do parque habitacional em Portugal está localizado em zonas de risco climático elevado, uma realidade que transforma a crise da habitação numa oportunidade para repensar não apenas a quantidade, mas sobretudo a qualidade e a localização das novas construções. A estimativa é avançada por Rui Lopes, CEO da Simplefy, citado pelo ‘Jornal de Notícias‘, que alerta para a necessidade de integrar o risco ambiental nas decisões de construção, financiamento e licenciamento.
De acordo com o responsável, cerca de 23% dos imóveis existentes encontram-se em áreas suscetíveis ao impacto de fenómenos extremos, como incêndios, cheias ou erosão costeira. Para Rui Lopes, a resposta à crise habitacional deve passar por construir mais, mas também por ter em atenção “onde e como se constrói”, sublinhando que a dimensão ambiental tem um “impacto gigante na sustentabilidade financeira” das famílias.
O CEO da Simplefy defende que continuar a erguer habitações com baixa eficiência energética e materiais de fraca qualidade contribui para o aumento das despesas com eletricidade e gás, colocando em risco o equilíbrio financeiro dos agregados. Nesse sentido, considera essencial que a reestruturação do parque habitacional nacional tenha em conta tanto a localização como a qualidade das novas construções.
As zonas identificadas como mais vulneráveis incluem o interior alentejano, devido ao calor extremo e à seca, as áreas costeiras, afetadas pela erosão e pela subida do nível do mar, e regiões do Interior Centro e Norte onde a falta de limpeza florestal aumenta a exposição aos incêndios. Rui Lopes defende, por isso, o reforço da fiscalização e a desburocratização dos processos de licenciamento, admitindo sanções mais severas para as autarquias que autorizem construções em zonas de risco. “É inaceitável casas novas não terem um certificado energético A”, afirma.
A pressão para integrar o fator climático no setor financeiro deverá intensificar-se a partir do segundo semestre de 2026, quando o Banco Central Europeu pretende que o risco climático possa reduzir o valor elegível dos ativos. Ainda assim, os bancos já podem discriminar positivamente clientes com imóveis mais eficientes do ponto de vista energético, através de spreads mais baixos ou condições mais favoráveis nos seguros. O chamado crédito verde está em crescimento, representando cerca de 15% do total na Caixa Geral de Depósitos.
Apesar deste enquadramento, Rui Lopes não acredita que, a curto prazo, os bancos passem a restringir o acesso ao crédito com base exclusiva na localização do imóvel ou no certificado energético. Reconhece, no entanto, que em zonas consolidadas, como o centro de Lisboa, será difícil alcançar certificações energéticas elevadas em muitos edifícios. Ainda assim, aponta várias intervenções possíveis para melhorar a eficiência das habitações, como a instalação de painéis solares ou a substituição de janelas.
“Acima da eficiência está a necessidade de as pessoas terem uma casa”, resume o CEO da Simplefy, num contexto em que os preços continuam a subir e o parque habitacional nacional permanece altamente exposto a riscos climáticos e estruturais.














