A União Europeia e os Estados Unidos estão a preparar um ambicioso plano de prosperidade avaliado em cerca de 800 mil milhões de dólares para apoiar a reconstrução da Ucrânia após o fim da invasão russa em grande escala. A iniciativa, revelada por um documento a que a revelado pelo jornal Politico, depende, no entanto, de um cessar-fogo que continua distante, mantendo o projeto vulnerável enquanto o conflito prosseguir.
O documento, com 18 páginas e datado de 22 de janeiro, define um plano de recuperação a 10 anos, acompanhado por uma estratégia operacional imediata de 100 dias, e prevê uma via acelerada de integração da Ucrânia na União Europeia. A proposta foi distribuída pela Comissão Europeia às capitais europeias antes da cimeira de líderes realizada em Bruxelas, segundo responsáveis e diplomatas europeus com conhecimento direto do processo.
Apesar da mobilização de centenas de milhares de milhões de dólares em financiamento público e privado e da apresentação da Ucrânia como futuro Estado-membro da UE e destino de investimento, o plano assenta num pressuposto crítico: a existência de garantias de segurança já estabelecidas, não funcionando como um roteiro militar, mas sim como um instrumento de transição da ajuda de emergência para uma prosperidade económica sustentável.
A estratégia de financiamento estende-se até 2040 e envolve a União Europeia, os Estados Unidos e instituições financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, que, em conjunto, se comprometem a canalizar 500 mil milhões de dólares ao longo da próxima década. A Comissão Europeia planeia ainda disponibilizar 100 mil milhões de euros adicionais em apoio orçamental e garantias de investimento no quadro do próximo orçamento plurianual da UE, a partir de 2028, com o objetivo de desbloquear cerca de 207 mil milhões de euros em investimentos.
Os Estados Unidos, por sua vez, comprometeram-se a mobilizar capital através de um Fundo de Investimento para a Reconstrução EUA-Ucrânia, embora sem indicar um montante específico. O documento sublinha que Washington pretende assumir um papel central não apenas como doador, mas como parceiro económico estratégico, investidor direto e elemento de credibilização do esforço de reconstrução.
Entre os sectores prioritários para o investimento norte-americano estão os minerais críticos, as infraestruturas, a energia e a tecnologia. A nota prevê igualmente a participação direta de empresas e especialistas dos Estados Unidos no terreno, destacando o papel do país na mobilização de capital privado a nível global.
A gestora de ativos BlackRock, a maior do mundo, está a aconselhar o plano de reconstrução numa base pro bono, mas alerta para as dificuldades em atrair investimento enquanto a guerra continuar. “Se é um fundo de pensões, com responsabilidades fiduciárias para com os seus clientes, é praticamente impossível investir numa zona de guerra”, afirmou o vice-presidente da BlackRock, Philipp Hildebrand, à margem do Fórum Económico Mundial, em Davos. Segundo o responsável, o processo terá de ser cuidadosamente faseado e exigirá tempo.
O plano de prosperidade integra um roteiro de paz em 20 pontos que os Estados Unidos estão a tentar mediar entre Kiev e Moscovo. Nesse contexto, está prevista para sexta-feira e sábado uma reunião tripartida entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos, em Abu Dhabi, numa altura em que o conflito se aproxima do seu quarto aniversário.
Apesar da redução do apoio militar e humanitário norte-americano durante a guerra, a administração dos EUA manifesta disponibilidade para investir de forma significativa no país após o fim das hostilidades. Ainda assim, os promotores do plano reconhecem que o investimento em larga escala dificilmente avançará enquanto persistirem ataques com drones e mísseis na linha da frente oriental.
“É muito difícil imaginar que isso aconteça em grande escala enquanto continuarem a voar drones e mísseis”, sublinhou Hildebrand, reforçando que o sucesso do plano depende diretamente do fim do conflito armado.














