Ucrânia: Zelensky vê mudanças na postura da Rússia, mas recusa acordo sobre o Donbass até falar com Putin

As negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, em curso em Abu Dhabi, revelam alguns sinais de alteração na postura de Moscovo, mas Volodymyr Zelensky deixou claro que não aceitará qualquer acordo sobre o Donbass sem se reunir diretamente com Vladimir Putin.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 5, 2026
14:20

As negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, em curso em Abu Dhabi, revelam alguns sinais de alteração na postura de Moscovo, mas Volodymyr Zelensky deixou claro que não aceitará qualquer acordo sobre o Donbass sem se reunir diretamente com Vladimir Putin.

O principal ponto de conflito continua a ser a cedência do Donbass, uma região fronteiriça que as tropas russas não conseguiram conquistar por completo mesmo após quase quatro anos de guerra. Segundo uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS), 52% dos ucranianos consideram inaceitável entregar Donetsk e Lugansk, enquanto 40% estariam dispostos a ceder para pôr fim ao conflito.

As conversações em Abu Dhabi incluem delegações técnicas e militares de ambos os países, com a participação dos Estados Unidos, que oferecem garantias de segurança à Ucrânia. Kirilo Budánov, antigo chefe de serviços de espionagem ucraniana, lidera as negociações com o Kremlin, e segundo fontes citadas pelo diário Pravda, esta abordagem tem permitido tratar de questões concretas como mecanismos de retirada, garantias e prazos, em vez de longos debates históricos sobre conquistas passadas.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, salientou que o processo de paz será longo: “A lista de temas pendentes reduziu-se consideravelmente em relação ao ano passado, mas os assuntos que permanecem são os mais difíceis”.

Rússia mantém posições maximalistas e ataques
Apesar da presença das delegações técnicas, Rússia mantém exigências máximas e continua a realizar ataques sobre território ucraniano. O Kremlin revogou recentemente a trégua energética acordada anteriormente, lançando uma nova onda de drones e mísseis balísticos contra várias cidades ucranianas, incluindo Kiev, com temperaturas a rondar os -20ºC.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que as tropas russas continuarão a combater até que Kiev tome decisões que satisfaçam Moscovo. Por sua vez, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguéi Lavrov, acusou Zelensky de não querer terminar a guerra, porque ceder o Donbass significaria sacrificar a sua carreira política.

Zelensky mantém posição firme sobre Donbass
O Presidente ucraniano rejeita congelar a linha da frente, considerando isso uma concessão significativa. Zelensky explicou que a Rússia necessitaria de pelo menos dois anos para controlar completamente o Donbass, e que tal campanha militar poderia causar a morte de cerca de 800.000 soldados russos.

“Antes tínhamos de ouvir longas horas sobre conquistas históricas. Agora são militares que discutem aspetos concretos como retirada, garantias e prazos”, referiu uma fonte próxima das negociações.

O secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, Rustem Umerov, descreveu o primeiro dia de conversações como “substancial e produtivo”, sem divulgar detalhes, enquanto analistas alertam que as informações públicas podem diferir do que realmente ocorre na mesa de negociação.

Participação internacional reforça seriedade das negociações
Além de Marco Rubio, estão presentes Steve Witkoff, enviado especial do Presidente Trump, Jared Kushner, Josh Gruenbaum, Daniel Driscoll e o general Alex Grynkewich, comandante supremo aliado da NATO. A presença de representantes militares e técnicos dos EUA e da NATO sinaliza que as negociações são encaradas com seriedade, ainda que os progressos concretos dependam do encontro direto entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin.

O Presidente ucraniano sublinhou a importância de que a população perceba avanços reais no processo de paz, evitando que a Rússia tire proveito da situação enquanto mantém ataques. No seu habitual discurso noturno, anunciou ainda um novo intercâmbio de prisioneiros de guerra, o primeiro em quatro meses.

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