O potencial processo de paz para a Ucrânia entrou numa fase decisiva, com quatro protagonistas centrais a tentarem moldar o futuro do conflito: Kiev, Moscovo, Estados Unidos e União Europeia. Cada parte encara as negociações a partir de interesses distintos e as conversas em Genebra serviram como um novo ponto de partida para a diplomacia, embora o impasse continue profundo.
O plano de paz passou de 28 para 19 pontos, numa autoria ainda incerta. Washington afirma que a proposta inicial lhe pertence, mas com contribuições apenas da Rússia. Durante as conversas em Genebra, o documento ganhou nuances europeias e participação ucraniana, mas os bloqueios mantêm-se: a cedência de partes do leste ucraniano à Rússia, a redução drástica das forças armadas ucranianas e a possibilidade futura de entrada de Kiev na NATO. Kiev fala em “progressos significativos”, mas admite que há ainda um longo caminho a percorrer.
A urgência de Kiev e a pressão sobre Zelensky
A Ucrânia continua a ser o elemento central do processo. Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional, indicou que estão a ser feitos esforços para uma nova reunião em Washington “o mais breve possível”, com o objetivo de alcançar um acordo antes do final do mês. Kiev mantém duas linhas vermelhas: não ceder território e não permitir que terceiros definam o seu futuro na Aliança Atlântica.
A perda do apoio direto dos EUA e da UE agravou a posição de Zelensky, que reconhece que o tempo joga contra a Ucrânia. O país dispõe atualmente de cerca de 800 mil militares ativos e um número equivalente na reserva, mobilizados desde o início da invasão russa, e rejeita a proposta de redução para 600 mil. A Europa considera que um corte desse tipo deixaria a Ucrânia vulnerável.
As concessões possíveis permanecem pouco claras e deverão ser discutidas presencialmente entre Zelensky e Trump. A posição maximalista inclui colocar Donetsk e Lugansk sob controlo russo como zonas desmilitarizadas, mantendo as atuais linhas de combate. Zaporizhia e Kherson regressariam à Ucrânia. Neste cenário, Moscovo controlaria cerca de 20% do território ucraniano, enquanto Kiev nada ganharia. A recuperação da Crimeia, anexada ilegalmente em 2014, não está sequer em discussão.
Estados Unidos assumem o papel de árbitro, mas favorecem Moscovo
A Casa Branca tem-se posicionado como árbitro, mas com clara inclinação para as exigências russas. De acordo com o ’20Minutos’, o plano apresentado por Washington incorporou desde o início a influência de Moscovo. Donald Trump quer encerrar a guerra rapidamente, considerando que a Ucrânia não constitui um interesse estratégico, razão pela qual suspendeu os recursos destinados a Kiev. O presidente americano não pressionou as negociações ao nível de Gaza e tem alternado ultimatos e recuos, enfraquecendo ainda mais a posição ucraniana.
Moscovo mantém as exigências e joga com o tempo
A Rússia rejeita as alterações introduzidas por europeus e insiste nos seus princípios: impedir a expansão da NATO à Ucrânia, manter o controlo do leste e conservar a Crimeia. O Kremlin sabe que continua a deter vantagem no terreno e que os EUA parecem cada vez mais alinhados com a sua visão. Sem pressa, Moscovo explora a urgência de Kiev, convertendo-a numa vantagem estratégica.
Europa contribui mais, mas influencia menos
A União Europeia aguarda o momento certo para se inserir nas negociações, mas permanece fragilizada no processo. É a Europa que suporta a maior parte dos custos e, desde o regresso de Trump à Casa Branca, o desequilíbrio tornou-se evidente. Dados do Instituto de Kiel mostram que, em 2025, os EUA reduziram a ajuda para 4,8 mil milhões de euros, enquanto a UE elevou a sua contribuição para mais de 49 mil milhões. Apesar desse esforço, Bruxelas mantém-se sem espaço político à mesa, limitando-se a reagir ao plano de Trump e a ajustá-lo, ainda que isso o torne inaceitável para Moscovo.
Um objetivo incerto para 2026
Idealmente, o processo deveria permitir iniciar 2026 com um acordo de paz. Mas o apoio a Kiev está a desvanecer-se sem a força dos EUA, Trump quer avançar para outros dossiês e a Europa não tem capacidade para substituir Washington, apesar do apoio expressivo prestado durante mais de três anos. Moscovo continua sem receios, controlando o ritmo das conversas em articulação com a Casa Branca.
As bases para um acordo foram colocadas, mas o desfecho permanece imprevisível. O tempo, mais do que qualquer outra variável, tornou-se o fator determinante de um processo que continua a avançar entre pressões, divergências e fragilidades políticas.














