Trump pondera dar até 100 mil euros a cada gronelandês para ‘tirar’ a ilha da Dinamarca

Os valores em análise variaram entre cerca de 9.000 e 92.000 euros por pessoa, embora o montante exato e a forma de implementação nunca tenham sido definidos

Francisco Laranjeira
Janeiro 9, 2026
9:58

As autoridades americanas discutiram a possibilidade de pagar montantes únicos aos habitantes da Gronelândia como forma de incentivar a separação da Dinamarca e uma eventual aproximação política aos Estados Unidos. As conversas envolveram assessores da Casa Branca e outras figuras da administração, segundo várias fontes com conhecimento direto do processo citadas pela agência ‘Reuters’.

Os valores em análise variaram entre cerca de 9.000 e 92.000 euros por pessoa, embora o montante exato e a forma de implementação nunca tenham sido definidos. A Gronelândia tem cerca de 57 mil habitantes, o que poderia representar um encargo total próximo dos 5,2 mil milhões de euros, caso fosse avançada a opção de um pagamento mais elevado.

A proposta ajuda a explicar como Washington poderia tentar concretizar a ambição, antiga, de adquirir a Gronelândia, apesar da recusa reiterada das autoridades em Copenhaga e em Nuuk, que insistem que o território não está à venda. Ainda assim, a ideia é vista como politicamente sensível e potencialmente ofensiva para uma população que há décadas debate a sua própria independência e a dependência económica da Dinamarca.

Reação dura da Gronelândia e críticas europeias

A hipótese voltou a ganhar visibilidade depois de Donald Trump reafirmar publicamente a necessidade de os EUA anexarem a ilha. O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, reagiu de imediato, rejeitando qualquer cenário desse tipo e acusando Washington de alimentar “fantasias sobre anexação”.

Líderes europeus também manifestaram desagrado, sublinhando que a decisão sobre o futuro da Gronelândia cabe exclusivamente ao território autónomo e à Dinamarca. França, Alemanha, Itália, Polónia, Espanha, Reino Unido e Dinamarca emitiram uma declaração conjunta nesse sentido, recordando que os EUA e a Dinamarca são aliados no seio da NATO.

Questionada sobre as discussões internas, a Casa Branca confirmou apenas que a administração está a analisar “como seria uma possível compra” da Gronelândia. O secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou ainda uma reunião com o seu homólogo dinamarquês para discutir o tema.

Segurança nacional, minerais e pressão geopolítica

Trump tem defendido repetidamente que a Gronelândia é estratégica para os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos, apontando a localização geográfica e a riqueza em minerais essenciais para aplicações militares avançadas. O presidente americano sustenta ainda que o Hemisfério Ocidental deve permanecer sob influência de Washington.

Fontes próximas do processo indicam que estas discussões ganharam novo impulso após uma operação recente dos EUA contra Nicolás Maduro, com assessores da Casa Branca a procurarem capitalizar o momento para avançar outros objetivos geopolíticos de longa data. Embora as conversas sobre pagamentos diretos não sejam totalmente novas, tornaram-se mais concretas nos últimos dias, com valores mais elevados a entrarem na equação.

Apesar disso, permanecem muitas incógnitas, desde o momento e a forma de eventual pagamento até ao que seria exigido aos habitantes da Gronelândia em troca. A Casa Branca não excluiu o uso da força militar, mas garante que a via preferencial continua a ser diplomática.

Pacto de Livre Associação em cima da mesa

Entre as opções consideradas está a criação de um Pacto de Livre Associação, semelhante aos acordos existentes entre os EUA e países como a Micronésia, as Ilhas Marshall ou Palau. Nestes modelos, Washington assegura serviços essenciais e proteção militar, em troca de liberdade operacional para as forças armadas americanas e acesso privilegiado ao comércio.

Para que um acordo desse tipo fosse possível, a Gronelândia teria de se tornar independente da Dinamarca. Em teoria, os pagamentos poderiam servir como incentivo para um referendo nesse sentido. No entanto, embora a maioria da população apoie a independência, o receio dos custos económicos da separação tem travado avanços políticos concretos.

Além disso, as sondagens indicam que, apesar de aberta à rutura com Copenhaga, a maioria dos gronelandeses não deseja integrar os Estados Unidos, um obstáculo central a qualquer plano de Washington, concluiu a agência ‘Reuters’.

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