O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega esta quarta-feira à Coreia do Sul, na terceira etapa do seu périplo asiático, que incluiu passagens pela Malásia e Japão. A visita decorre até amanhã e coincide com o Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), que decorre na cidade de Gyeongju, num momento em que Washington e Seul tentam concluir um acordo comercial avaliado em 350 mil milhões de dólares.
Depois de participar na 47.ª Cimeira da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), em Kuala Lumpur, e de se reunir com o primeiro-ministro japonês, Sanae Takaichi, Trump chega à península coreana sob fortes expectativas diplomáticas. A deslocação ocorre num contexto de tensões sobre tarifas norte-americanas e protestos em Seul, onde centenas de manifestantes acusam os Estados Unidos de “pressionarem a Coreia do Sul a um acordo desigual”.
De acordo com fontes diplomáticas citadas pela Reuters, o chefe de Estado norte-americano permanecerá apenas até quinta-feira, antes do início formal das sessões plenárias da APEC — uma ausência que obrigou outros líderes a ajustar as suas agendas.
Um impasse de 350 mil milhões de dólares
O principal objetivo da visita é a tentativa de fechar o acordo de investimento entre Washington e Seul, que prevê um pacote de 350 mil milhões de dólares destinados a financiar projetos de empresas coreanas em território norte-americano.
O governo de Lee Jae-myung insiste que o montante deve ser aplicado em empréstimos e garantias de crédito, enquanto Trump exige que o valor seja pago “em dinheiro ou em ações, de forma imediata”.
O presidente sul-coreano alertou que uma saída em numerário “desestabilizaria os mercados financeiros nacionais”, colocando em risco a economia do país. Já o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, admitiu no início da semana que o acordo “está em vias de ser concluído”, mas não deverá ser assinado integralmente durante a visita.
A indústria automóvel sul-coreana, particularmente a Hyundai Motor, é uma das mais afetadas pela atual guerra comercial. As exportações de veículos para os Estados Unidos enfrentam tarifas de 25%, em comparação com os 15% aplicados aos automóveis japoneses. Um acordo poderia aliviar a pressão sobre o setor.
Protestos e ressentimentos em Seul
Em Seul, a chegada de Trump é marcada por protestos junto à embaixada norte-americana. Cartazes com mensagens como “Coreia não está à venda” ou “Não ao chantagem económica” foram exibidos por manifestantes que criticam o que consideram ser “uma imposição de Washington”.
A contestação intensificou-se após uma operação da agência de imigração norte-americana (ICE) numa fábrica da Hyundai, no Estado da Geórgia, em setembro, que resultou na detenção de mais de 300 trabalhadores sul-coreanos.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, Cho Hyun, anunciou que Seul e Washington criaram um grupo de trabalho para “estabelecer uma nova categoria de visto para projetos de investimento coreanos”, procurando evitar incidentes semelhantes.
A professora Hyobin Lee, da Universidade Sogang, sublinhou à DW que “muitos sul-coreanos sentem que a aliança com os Estados Unidos está a ser usada para ganhos económicos unilaterais”. A académica acrescentou que a exigência de um investimento de grande escala “é percecionada como uma traição” por parte de um aliado histórico.
Encontro com Kim Jong Un ainda em aberto
Durante a viagem entre Kuala Lumpur e Tóquio, Trump afirmou estar “aberto a encontrar-se com Kim Jong Un, se ele assim o desejar”, numa tentativa de reatar o diálogo com o líder norte-coreano. O presidente norte-americano recordou os encontros anteriores com Kim, incluindo o de Singapura, em 2018, e o de Panmunjom, em 2019, e disse querer “reviver a boa relação pessoal que mantiveram”.
No entanto, não há indicações de que Pyongyang esteja disponível para uma nova reunião, sobretudo depois de ter firmado recentemente um acordo militar e comercial com a Rússia, que reduziu o impacto das sanções internacionais.
O antigo deputado Kim Sang-woo, membro da Fundação para a Paz Kim Dae-jung, afirmou à DW que “Kim tentará extrair o máximo possível de Trump se o encontro acontecer”, mas que “o presidente norte-americano parece mais interessado nas imagens de um aperto de mão do que em concessões reais”.
Entre Washington, Pequim e Seul: equilíbrio delicado
Além do dossiê comercial, a visita de Trump insere-se num contexto de reequilíbrio geopolítico na Ásia-Pacífico, com a China e os Estados Unidos a tentarem reforçar a sua influência regional. O presidente chinês, Xi Jinping, também participará na APEC e deverá manter uma reunião bilateral com Trump na quinta-feira — a primeira desde o início do segundo mandato do presidente norte-americano.
A administração de Lee Jae-myung enfrenta uma tarefa delicada, procurando equilibrar as relações com as duas potências. Pequim impôs recentemente sanções a estaleiros navais sul-coreanos devido à sua cooperação militar com os Estados Unidos.
Segundo a Reuters, Seul está a promover um comunicado conjunto sobre livre comércio e a negociar declarações específicas sobre inteligência artificial e envelhecimento demográfico, ainda que vários diplomatas reconheçam que as divergências entre membros da APEC tornam improvável um consenso total.
A analista Hyobin Lee considera que “a atual liderança sul-coreana está disposta a negociar de forma mais assertiva”, e que “qualquer acordo com Washington terá de ser mutuamente vantajoso, e não apenas favorável aos Estados Unidos”.
Trump chega, assim, a uma Coreia do Sul dividida entre a oportunidade de fechar um acordo de investimento histórico e o receio de uma cedência excessiva. Para os observadores, a assinatura do pacto, prevista para esta quarta-feira, poderá marcar um momento decisivo na política económica da região, mas qualquer falha será vista como uma derrota para Seul e um triunfo diplomático de Pequim.
Como observou o investigador John Delury, da Asia Society, “num mundo em crise de multilateralismo, esta poderá ser uma das APEC mais consequentes das últimas décadas”.














