A recente atenção mediática em torno da possibilidade de uma fusão dos Estados Unidos com o Canadá e a Gronelândia, impulsionada por declarações e políticas da administração Trump, pode parecer inovadora. Contudo, a ideia tem raízes históricas, remontando ao movimento da tecnocracia que ganhou notoriedade nos anos 30, na sequência da Grande Depressão.
Nos anos 30, um grupo de inconformistas conhecido como “movimento da tecnocracia” propôs uma reestruturação radical da sociedade norte-americana. Este movimento defendia a criação de uma única unidade continental, denominada “Technate”, que englobaria os Estados Unidos, o Canadá, a Gronelândia, o México e partes da América Central, estendendo-se até ao Canal do Panamá.
Ao invés de se reger por fronteiras nacionais ou divisões políticas tradicionais, esta nova entidade seria administrada segundo princípios tecnocráticos, com a ciência e a tecnologia a orientar a produção e a distribuição de recursos.
A proposta, hoje vista como visionária e em certa medida premonitória, pretendia eliminar o desperdício e maximizar a produtividade, estabelecendo um sistema de governação baseado na eficiência técnica e não na política convencional.
Ligações contemporâneas: a administração Trump e a tecnocracia
As semelhanças entre algumas propostas actuais e os ideais tecnocráticos de então são notórias. Recentemente, a administração Trump, através do Departamento de Eficiência Governamental dos EUA (DOGE) — liderado pelo bilionário tecnológico Elon Musk — delineou planos para reduzir a burocracia, eliminar cargos considerados redundantes e afastar funcionários públicos associados a iniciativas de diversidade, consideradas “woke”.
Elon Musk declarou em fevereiro: “Temos realmente aqui o domínio da burocracia em oposição ao domínio do povo — a democracia”, sublinhando a intenção de substituir práticas políticas tradicionais por abordagens orientadas para a eficiência. Esta visão ecoa o posicionamento dos tecnocratas dos anos 30, que viam os políticos eleitos como ineficazes e defendiam a sua substituição por peritos em ciência e engenharia.
“O povo votou numa grande reforma governamental e é isso que o povo vai ter”, afirmou Musk aos jornalistas após uma visita à Casa Branca, em fevereiro deste ano.
As raízes do movimento tecnocrático
O movimento da tecnocracia emergiu como uma resposta ao colapso económico da Grande Depressão (1929-1939). Inspirava-se na obra “Tecnocracia”, publicada em 1921 pelo engenheiro Walter Henry Smyth, que promovia a gestão científica da sociedade.
Ganhou força graças ao trabalho de Howard Scott, engenheiro e economista, que fundou a Technical Alliance em 1932, posteriormente evoluída para a Technocracy Inc. Scott, acompanhado de engenheiros e académicos da Universidade de Columbia, promoveu palestras, distribuiu panfletos e angariou um número considerável de seguidores, especialmente entre os sectores técnico-científicos e progressistas.
A ideologia central do movimento defendia que a economia deveria ser gerida cientificamente, eliminando a ineficiência e a corrupção associadas tanto ao capitalismo como ao socialismo. A produção e o consumo seriam organizados segundo princípios de eficiência energética, e a automatização deveria reduzir drasticamente a necessidade de trabalho humano, permitindo uma sociedade de abundância.
Contudo, a rápida ascensão do movimento esmoreceu em meados da década de 1930. As críticas focavam-se no receio de que um governo gerido por especialistas não eleitos resultasse numa forma de autoritarismo, onde a participação democrática seria suprimida.
Um renascimento da tecnocracia em 2025?
Embora o movimento da tecnocracia tenha desaparecido como força política activa, algumas das suas ideias parecem ganhar novo fôlego em 2025. Musk, que tem uma ligação pessoal ao movimento — o seu avô materno, Joshua N. Haldeman, foi uma figura proeminente da tecnocracia no Canadá —, pode estar consciente destas raízes ideológicas.
As suas empresas, como a Tesla, a SpaceX e a Neuralink, partilham o espírito tecnocrático de apostar na inovação e na automatização para optimizar a civilização humana. A Tesla, por exemplo, lidera o desenvolvimento de veículos autónomos movidos a energia renovável, enquanto a SpaceX visa a colonização de Marte — projectos que ressoam com a crença tecnocrática de que a engenharia e a ciência podem superar as limitações humanas.
Apesar das semelhanças, existem diferenças fundamentais entre o actual governo dos EUA e o movimento tecnocrático dos anos 30. A administração Trump mantém-se firmemente ancorada na lógica do mercado livre, enquanto os tecnocratas defendiam o planeamento centralizado e a abolição do dinheiro, dos salários e do comércio tradicional.
Adicionalmente, enquanto os tecnocratas propunham uma gestão sem políticos eleitos, Trump defende que líderes políticos, como ele próprio, devem continuar a governar, em estreita colaboração com figuras do sector privado como Musk. Assim, ao contrário da rejeição tecnocrática da política tradicional, o governo actual parece integrar interesses políticos e económicos de forma explícita.
A influência persistente da tecnocracia
Apesar de nunca ter alcançado o poder, o movimento tecnocrático influenciou debates posteriores sobre a gestão científica da sociedade e o planeamento económico. O conceito de governação baseada em dados é hoje central em áreas como a eficiência energética, o urbanismo e até a administração pública.
Com a ascensão da inteligência artificial e do big data, ressurgiram discussões sobre o papel da tecnocracia na sociedade moderna. Países como Singapura e China exemplificam modelos de governação dominados por tecnocratas, que ocupam posições de elite.
Durante os anos 30, a tecnocracia encontrou forte oposição, sobretudo dos sindicatos, que apoiavam o New Deal progressista e a defesa dos direitos dos trabalhadores. À época, a confiança pública nas instituições políticas era significativamente maior do que hoje, o que dificultou a ascensão do movimento.
No entanto, num contexto actual de crescente desconfiança nas instituições democráticas, a ideia de uma sociedade gerida por especialistas, ainda que controversa, parece regressar ao centro do debate político e social.
O movimento da tecnocracia poderá ter sido uma nota de rodapé na história dos anos 30, mas as suas ideias fundamentais continuam a influenciar o modo como se discute a intersecção entre tecnologia, política e planeamento governamental nos dias de hoje.














