Trump e Modi anunciam novo acordo comercial e parceria estratégica. Índia vai comprar mais armas e petróleo aos EUA

O primeiro-ministro indiano apresentou um plano alinhado com as prioridades da administração norte-americana, incluindo o compromisso de aumentar as importações de petróleo, gás natural e armamento dos EUA, bem como a redução de tarifas sobre produtos norte-americanos e um reforço na cooperação para combater a imigração irregular de cidadãos indianos.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 14, 2025
19:05

Horas depois de confirmar a imposição de novas tarifas alfandegárias e outras barreiras comerciais contra países que, segundo ele, “se aproveitam dos Estados Unidos”, Donald Trump recebeu Narendra Modi na Casa Branca. O primeiro-ministro indiano apresentou um plano alinhado com as prioridades da administração norte-americana, incluindo o compromisso de aumentar as importações de petróleo, gás natural e armamento dos EUA, bem como a redução de tarifas sobre produtos norte-americanos e um reforço na cooperação para combater a imigração irregular de cidadãos indianos.

Os dois líderes anunciaram ainda um objetivo ambicioso para a segunda metade da década: duplicar o valor das trocas comerciais entre os dois países até 2030, estabelecendo-o em 500 mil milhões de dólares anuais (cerca de 476 mil milhões de euros). Este compromisso será formalizado num novo acordo comercial, cujas negociações deverão arrancar após o verão. Para a Índia, este entendimento poderá ser crucial para evitar a imposição de tarifas recíprocas por parte dos EUA, ainda que o país asiático não esteja imune à taxa de 25% sobre importações de aço e alumínio norte-americano.

“O primeiro-ministro Modi e eu concordámos em avançar com negociações para resolver disparidades de longa data. Queremos um nível de concorrência justo, ao qual achamos que temos direito”, afirmou Trump. No entanto, o presidente norte-americano deixou claro que considera as tarifas indianas “muito elevadas”, descrevendo-as como um “enorme problema” que limita significativamente o acesso das empresas dos EUA ao mercado da Índia. Washington pretende, assim, uma relação “justa e recíproca” com Nova Deli.

Segundo dados do Banco Mundial, a Índia é um dos países que aplica tarifas alfandegárias mais elevadas do mundo, com uma média de 11,87%, bem acima dos 2,53% registados nos Estados Unidos. Apesar disso, a economista Radhika Rao, do banco DBS em Singapura, destacou à BBC que os EUA, enquanto maior mercado de exportação de bens e serviços para a Índia, têm interesse em estabilizar as relações comerciais e conceder algumas concessões para reduzir o défice comercial bilateral.

Modi elogia Trump e adapta slogan MAGA
Durante a visita à Casa Branca, Modi elogiou publicamente Trump e fez uma adaptação do icónico slogan do movimento trumpista, “Make America Great Again” (MAGA). “Assim como o Presidente Trump fala em ‘Make America Great Again’, eu também estou empenhado em ‘Make India Great Again’ (MIGA). Juntos, MAGA e MIGA criam uma megaparceria para a prosperidade”, afirmou o primeiro-ministro indiano.

A intervenção de Modi foi ainda mais notável pelo facto de ter ocorrido numa rara conferência de imprensa. Segundo a BBC, esta foi apenas a terceira vez em 11 anos que o líder indiano aceitou responder diretamente a perguntas dos jornalistas. Desde que assumiu o poder em 2014, Modi tem sido criticado pela oposição por alegado autoritarismo, pela limitação da liberdade de imprensa e pela promoção de um discurso ultranacionalista hindu.

Um dos pontos centrais das negociações entre Modi e Trump foi o reforço das importações indianas de petróleo e gás natural norte-americanos. Atualmente, a Índia compra combustíveis fósseis a diversos países, incluindo a Rússia. No entanto, com a valorização do dólar e o corte das importações europeias de gás russo na sequência da invasão da Ucrânia, a cooperação energética com Moscovo intensificou-se.

Apesar disso, o Governo indiano comprometeu-se a aumentar as suas compras aos EUA. O secretário de Estado indiano para os Negócios Estrangeiros, Vikram Misri, citado pela Reuters, afirmou que a importação de combustíveis fósseis dos EUA poderá passar dos 15 mil milhões de dólares registados em 2024 para 25 mil milhões num futuro próximo.

No setor da defesa, a Índia tem tradicionalmente sido um dos maiores clientes da indústria militar russa. No entanto, segundo a BBC, a percentagem de armamento adquirido por Nova Deli a Moscovo caiu de 62% para 34% entre 2017 e 2023. A compra de equipamento militar norte-americano poderá indicar uma mudança no paradigma da política de defesa indiana.

Embora Vikram Misri tenha esclarecido que as negociações para a aquisição de armamento aos EUA ainda não começaram formalmente, Trump anunciou que a sua administração está a “abrir caminho” para fornecer caças F-35 à Força Aérea da Índia. Trata-se de um avião de guerra furtivo, projetado para escapar aos radares inimigos e considerado um dos mais avançados do mundo.

Além disso, o comunicado conjunto divulgado por Trump e Modi menciona a intenção da Índia de adquirir mísseis, veículos de combate e outras aeronaves norte-americanas. O objetivo é reforçar a cooperação militar entre os dois países na região do Indo-Pacífico, numa estratégia que visa conter a influência da China.

Outro ponto de entendimento entre Trump e Modi diz respeito à imigração. O primeiro-ministro indiano comprometeu-se a colaborar com os EUA para controlar o número crescente de imigrantes irregulares indianos que chegam ao país. Esta questão tem sido uma preocupação para Washington, já que a comunidade indiana é uma das maiores entre os imigrantes nos Estados Unidos.

Além disso, foi acordada a extradição do empresário indiano Tahawwur Rana, residente em Chicago e acusado pelas autoridades indianas de envolvimento no atentado terrorista de Bombaim, em 2008. A extradição de Rana tem sido uma exigência do governo de Modi, e o compromisso de Trump nesse sentido foi visto como mais um sinal do estreitamento das relações bilaterais.

O encontro entre Trump e Modi reforça a aliança estratégica entre os dois países, com impactos tanto no comércio como na geopolítica global. No entanto, os desafios permanecem, especialmente no que diz respeito às tarifas alfandegárias e ao equilíbrio da relação comercial entre as duas nações. Se a parceria conseguir ultrapassar esses obstáculos, a Índia poderá consolidar-se como um dos aliados mais importantes dos EUA na Ásia, num momento em que a rivalidade com a China continua a crescer.

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