Troco privacidade por comodidade

Por Luís Martins, director de Marketing da IT People

Há cerca de um ano, privacidade era o direito fundamental mais discutido nas redes sociais. Os media tradicionais denunciavam que o Facebook recolhia sem consentimento dados de mais de 87 milhões de utilizadores norte-americanos, que eram depois utilizados na campanha de Donald Trump. A corrida pelo resgate da nossa privacidade iniciava-se.

No mês de Maio de 2018, recordo-me de me embrenhar em bases de dados antigas, redes sociais e na escrita de políticas de privacidade. Todas as organizações na União Europeia preparavam-se para o arranque do Regulamento Geral de Protecção de Dados, que estabelecia novas fronteiras à utilização de dados privados para fins com os quais não concordámos expressamente. Era criada uma nova função profissional – o DPO (Data Protection Officer) – que se certificava da aplicação das políticas de controle de dados e de privacidade por parte da organização. O mediatismo das multas resultantes de não cumprirmos o regulamento era grande. Tudo estava alinhado para termos utilizadores – não cidadãos – mais conscientes sobre a utilização digital dos seus dados. Todas as condições estavam criadas para um resgate absoluto dos nossos direitos fundamentais. Só que não.

Hoje, somos assolados digitalmente por caixas e caixas de políticas de privacidade que invariavelmente aceitamos, porque nos habituámos a aceitar. Não as lemos, porque a nossa experiência diz-nos que são demasiado longas, portanto aceitamos tudo o que lá esteja escrito – mesmo que isso nos leve a aceitar uma subscrição de serviço ou a ser controlado de formas incontornáveis. Tornaram-se essencialmente barreiras à navegação e não o início de um processo de consciencialização.

Este tema vai tornar-se ainda mais complexo com a adopção continuada de novas tecnologias. Os miúdos que há dois anos apanhavam Pokémons na rua continuam a enviar os seus dados e referência geográfica a cada segundo para um servidor que ninguém sabe onde está, quem tem acesso ou mesmo de quem é. Com a vulgarização de 5G, teremos serviços como Lives HD de Facebook – quem salvaguarda as imagens das pessoas filmadas? Com a vulgarização da Realidade Aumentada, criaremos um modelo 3D persistente do mundo onde iremos partilhar todas as experiências aumentadas com os outros cidadãos. Este modelo pode incluir o interior dos aeroportos. O interior de hospitais. O interior das nossas casas. E tanto nessa altura como hoje, poderemos aceitar enviar essas informações para um servidor distante através de um botão OK.

Devido a essa aceitação sem critério, estamos a legalizar a recolha de todos os dados privados sem uma aprovação prévia de facto pelo utilizador, o que perverte totalmente o propósito inicial do RGPD.

Então o verdadeiro tema é: se estamos cada vez mais conscientes dos problemas actuais e futuros gerados pela partilha inconsciente dos nossos dados privados, porque insistimos em comportamentos de risco ou mesmo num desprezo completo da nossa privacidade pessoal, ao acedermos a serviços online?

Precisamente porque estes serviços facilitam-nos muito a vida e os dados, no formato actual, dificultam-nos bastante a vida. Analisar o tema da importância da privacidade deve ser analisado em paralelo ao da utilização gratuita de determinados serviços digitais – a verdade é que estes não são gratuitos, apenas os pagamos com dados. Esses dados são valiosos para diversas dinâmicas de negócio – não apenas de comunicação, como no caso da Cambridge Analytica, mas igualmente para alimentar Inteligências Artificiais que estão a aprender os mais diversos tipos de tarefas enquanto você lê este artigo.

A expectativa de que um utilizador leia uma política de privacidade sempre que muda de site é algo de culturalmente inaceitável. Podemos falar sobre novos formatos que facilitem a leitura ou sobre o ensino deste e doutros direitos fundamentais no Ensino Universal. Podemos argumentar que este trade-off é democrático e manter tudo como está, em consciência. Podemos até assumir que podemos pagar para utilizarmos serviços digitais sem fornecermos dados. Mas precisamos desta discussão urgentemente, porque são estes os direitos fundamentais que nos separam das máquinas e estamos num mundo crescentemente feito de tecnologia.

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