Troca ilegal de identidades de estafetas da Bolt, Glovo ou Uber Eats é feita em vários grupos online: há quem alugue contas à semana

Em 2023, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) revelou que metade dos estafetas fiscalizados se encontravam “completamente irregulares do ponto de vista da sua relação laboral”

Revista de Imprensa
Fevereiro 18, 2025
9:47

A troca de contas e identidades em estafetas de comida, por parte de quem não tem documentação para trabalhar nas plataformas online, é uma realidade frequente, indicou esta terça-feira a rádio ‘Renascença’, que durante meses infiltrou-se em vários grupos online para perceber o negócio.

“Quem chega não tem documentos para abrir a própria conta. A solução é alugar”, apontou Carlos, um brasileiro que espera pelo documentos por parte da AIMA há mais de um ano e meio. São vários os grupos privados no WhahtsApp, Facebook, Messenger ou Telegram com membros registados na UberEats, Glovo ou BoltFood a alugar as suas contas por uma semana, uma quinzena ou um mês – os preços variam entre os 20 e os 60 euros semanais.

Carlos não tem conta própria, mas está envolvido no esquema há mais de um ano, e nunca teve problemas com as autoridades ou com a plataforma. “O dono da conta com que eu trabalho está a trabalhar na restauração e agora aluga-me a conta dele”, explicou. “A maioria das contas alugadas são de pessoas que já trabalharam como estafetas, legalizaram-se no país e agora usam esse aluguer para complementar o salário”, complementou Mariana.

O esquema é simples: todas as semanas, o dinheiro que Carlos faz com as entregas “cai na conta” do verdadeiro dono, que desconta os 40 euros semanais, os 8% de impostos, e envia o resto a Carlos. “Há muitos, muitos, muitos” casos como o dele, assim como há “muitos” donos das contas que ficam com o dinheiro – há quem trabalhe semanas a fio e nunca receba o dinheiro, mas como estão em situação irregular, não podem fazer queixa.

Em 2023, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) revelou que metade dos estafetas fiscalizados se encontravam “completamente irregulares do ponto de vista da sua relação laboral”.

Não é o caso de Tariq, há mais de três anos em Portugal vindo do Paquistão, e que já obteve a autorização de residência e que utiliza a Glovo. “A maior razão para o desemprego dos imigrantes em Portugal é a barreira da língua, de resto não há problemas”, explicou. “É por isso que muitas pessoas estão a alugar as contas, para conseguir ganhar dinheiro.”

“Acho que isto não é a forma certa, é totalmente ilegal e é normal que as autoridades tomem medidas contra isto. Vais entregar a comida, chegas à porta e o cliente percebe, ‘este não é o Tariq, é o Peter ou o John’”, apontou. Nunca recorreu a este esquema, mas conhece-o, salientando haver quem alugue contas por 150 euros mensais.

Quem aluga contas de outras pessoas está a incorrer num crime de usurpação de identidade, indicou Rita Garcia Pereira. “No meu entendimento, não se verifica o crime de furto de identidade, porque é um ato consentido. Mas depois existe um outro plano, que é o de burla em termos informáticos. Nessa medida, teríamos, como verificado, o crime de burla informática previsto no Código Penal no artigo 221”, indicou a advogada especializada em direito do trabalho, salientando que as penas podem variar entre “multa ou prisão até cinco anos”.

As plataformas visadas – UberEats Portugal, Bolt Food ou Glovo – sublinharam terem complexos sistemas de segurança, embora não tenham revelado quantas infrações foram detetadas – nem sequer sobre quantos estafetas circulam no país.

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