A discussão em torno das práticas parentais voltou a ganhar força após duas investigadoras australianas defenderem que até a troca de fraldas deve servir para ensinar bebés a compreender o conceito de consentimento. A proposta, apresentada por Nicole Downs e Katherine Bussey, docentes de Educação Infantil na Universidade Deakin, reacende um debate que já tinha causado polémica no passado, sobretudo depois de declarações semelhantes feitas em 2018 por Deanne Carson, da organização Body Safety Australia, que então geraram fortes críticas.
Num artigo publicado no The Conversation, as especialistas argumentam que os pais não devem esperar até à adolescência para abordar temas relacionados com contacto físico adequado. Afirmam que o consentimento deve integrar “o quotidiano” e que os bebés podem aprender desde muito cedo o que é aceitável em relação ao seu corpo. Para iniciar uma troca de fralda, recomendam que o adulto se baixe ao nível da criança, diga “precisas de mudar a fralda” e espere alguns segundos para que a informação seja assimilada, respeitando expressões faciais e linguagem corporal.
Segundo as investigadoras, os pais podem ainda perguntar à criança se prefere caminhar ou ser carregada até ao trocador, e devem evitar distrações — como canções ou brinquedos — durante o processo. “É importante que as crianças percebam quando alguém está a tocar nas partes mais íntimas do seu corpo”, defendem Downs e Bussey. Sugere-se, igualmente, que se envolva o bebé na interação, com perguntas como “podes levantar o rabinho para tirar a fralda?”, ensinando-lhe que tem o direito de saber e participar no que acontece ao seu corpo.
O método inclui também a utilização dos termos anatómicos corretos — como pénis, vulva ou ânus —, que, segundo as autoras, contribui para que a criança possa comunicar com clareza a outros adultos de confiança eventuais contactos impróprios. Reconhecem, contudo, que nem sempre será possível aplicar este modelo de forma rígida, sobretudo em situações de urgência, como uma “explosão de cocó”. Ainda assim, recomendam que os pais tentem adotar estes hábitos “o mais frequentemente possível”, sublinhando que a parentalidade já representa uma carga exigente e que não se deve procurar a perfeição em cada troca de fralda.
As especialistas sugerem ainda que o desenvolvimento da autonomia pode ser reforçado noutras rotinas diárias, como permitir que a criança escolha a cor da roupa, decida entre comer uma maçã ou uma pera ou opte entre ir ao parque ou dar um passeio. Estas pequenas escolhas, afirmam, ajudam a reduzir conflitos e estimulam a independência. A discussão reacendeu também reações antigas: em 2021, um vídeo viral mostrou uma mãe a pedir consentimento ao bebé antes de o mudar, gerando críticas sobre se seria admissível deixar uma criança numa fralda suja caso esta “não quisesse” ser mudada.
A controvérsia mantém-se, sobretudo entre psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil. Entre os críticos citados anteriormente encontra-se o psicólogo Andrew Fuller, que classificou este tipo de recomendações como “impraticáveis”. Para Fuller, a relação entre pais e filhos assenta mais na confiança do que no consentimento explícito: “As famílias funcionam melhor quando as crianças confiam que os pais fazem o que é melhor para elas. Não se trata de consentimento, trata-se de confiança.”














