Três mortos em duas semanas devido a ataques de vespas asiáticas na Galiza: “É apenas a ponta do icebergue”

Em menos de duas semanas, três homens perderam a vida na Galiza devido a picadas de vespas velutinas, uma espécie invasora originária da Ásia, também conhecida como “vespa assassina”.

Pedro Gonçalves
Outubro 28, 2025
15:14

Em menos de duas semanas, três homens perderam a vida na Galiza devido a picadas de vespas velutinas, uma espécie invasora originária da Ásia, também conhecida como “vespa assassina”. O mais recente ataque mortal ocorreu neste domingo, numa altura em que o outono já deveria ter reduzido significativamente a atividade destes insetos. A situação, considerada fora do normal, levou a Xunta da Galiza a reconhecer um “aumento extraordinário” da presença da espécie, atribuído à sua “enorme adaptabilidade ao clima e ao território”. O governo regional pede “máxima precaução, sobretudo no caso de pessoas alérgicas”, já que, nestes casos, uma picada pode ser fatal.

Xesús Feás, veterinário e investigador que há anos estuda o impacto sanitário das velutinas na região, confessou-se “consternado e frustrado” com o aumento das mortes. “Há milhares de ninhos, cada vez mais, e não os retiram”, alertou o especialista, sublinhando que muitas vítimas desconhecem que sofrem de alergias graves ao veneno destas vespas.

Os três homens que morreram este mês na Galiza foram atacados por enxames cujos ninhos estavam escondidos debaixo da terra, tornando-os praticamente invisíveis. As duas primeiras vítimas foram surpreendidas enquanto limpavam terrenos agrícolas. O terceiro caso ocorreu em Cospeito (Lugo), quando um caçador de 55 anos terá pisado inadvertidamente um ninho enquanto caçava perdizes perto da sua casa.

Segundo Feás, estes ninhos subterrâneos são particularmente perigosos porque “não se veem” e representam uma ameaça crescente para quem realiza atividades ao ar livre, como desbravar terrenos ou trabalhar em quintas. “Os ninhos debaixo da terra têm aparecido cada vez com mais frequência”, alerta o veterinário, que considera urgente reforçar os meios de combate também no outono, e não apenas nos meses de verão.

A presença da vespa velutina em Espanha cumpre agora 15 anos, e apesar dos esforços, a luta contra esta praga continua sem tréguas. A Xunta afirma, contudo, que o “plano de choque com medidas inovadoras” lançado no ano passado está a dar resultados. De acordo com a Consellería de Presidencia, em 2025 foram capturadas cerca de 230 mil vespas-rainhas, o dobro do registado em 2024, graças à colocação de 18.500 armadilhas distribuídas pelos concelhos galegos na primavera.

As autoridades regionais acrescentam ainda que as chamadas de alerta sobre enxames diminuíram 30% este ano e lembram que o protocolo prevê a remoção urgente de ninhos em zonas onde residam pessoas com alergias conhecidas.

Apesar destes números, Feás é crítico da atuação do governo regional, que acusa de demonstrar “desinteresse” perante as consequências “graves” da praga para a saúde pública e para o ambiente. “Os meios disponíveis estão sobrecarregados e não conseguem retirar todos os ninhos detetados”, denuncia. O veterinário também adverte que muitas das armadilhas utilizadas para capturar as vespas acabam por matar outras espécies de insetos, afetando a biodiversidade.

As picadas de velutina representam um risco mortal para as pessoas alérgicas, mas Feás considera que o problema é muito mais vasto. “As mortes são apenas a ponta do icebergue”, afirmou, lamentando que não existam dados consolidados sobre os casos de picadas que exigem intervenção médica, mas não resultam em óbito.

A Galiza lidera o país em mortes causadas por picadas de insetos, com uma taxa de 2,2 por milhão de habitantes por ano — muito acima da média espanhola de 0,08 —, segundo dados oficiais. No entanto, estas estatísticas não distinguem as espécies responsáveis, o que dificulta a implementação de medidas eficazes.

Marita Puga, presidente da Associação Galega de Apicultura, reforça que “a velutina é já um problema de saúde pública”. A dirigente afirma que este ano foi registado “um repique muito grande” da presença destes insetos e teme que a situação piore em 2026. “O descontrolo é total”, lamenta, admitindo que as medidas tomadas pela Xunta “ajudaram”, mas “não são suficientes para conter a expansão da espécie”.

A Galiza já tinha vivido uma situação semelhante em julho de 2018, quando três pessoas morreram em apenas uma semana devido a ataques de velutinas em Viveiro (Lugo), O Porriño (Pontevedra) e San Cristovo de Cea (Ourense). Agora, sete anos depois, o padrão repete-se em três províncias distintas: Dozón (Pontevedra), Irixoa (A Coruña) e Cospeito (Lugo).

As autoridades pedem à população que mantenha a vigilância, especialmente nas zonas rurais e florestais, e que comunique de imediato a presença de ninhos para evitar novas tragédias. Entretanto, especialistas e apicultores insistem que a ameaça das vespas velutinas está longe de ser controlada e que o perigo continuará a crescer se não forem reforçados os meios de combate e a investigação científica.

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