Suécia negoceia alargamento do ‘guarda-chuva nuclear’ com França e Reino Unido e que criar uma “NATO europeia”

A Suécia está a negociar com França e com o Reino Unido a possibilidade de estender ao seu território o guarda-chuva nuclear, num contexto de crescente inquietação europeia quanto à fiabilidade do modelo de segurança transatlântico.

Pedro Gonçalves
Janeiro 30, 2026
14:30

A Suécia está a negociar com França e com o Reino Unido a possibilidade de estender ao seu território o guarda-chuva nuclear, num contexto de crescente inquietação europeia quanto à fiabilidade do modelo de segurança transatlântico. O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, defende em paralelo a criação de uma “NATO europeia”, capaz de reforçar a segurança do continente sem depender exclusivamente dos Estados Unidos, num momento marcado pelas declarações e ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, em relação à Gronelândia.

Kristersson confirmou que Estocolmo participa “em todas as discussões” relacionadas com armamento nuclear desde a adesão da Suécia à NATO, em março de 2024, ainda que o país não possua armas atómicas. O chefe do Governo sueco sublinha que essa participação não visa a utilização de armamento nuclear, mas sim garantir que as democracias mantenham acesso a mecanismos de dissuasão enquanto persistirem ameaças externas.

As declarações foram feitas numa entrevista à radiotelevisão pública sueca SVT, na qual Kristersson se mostrou particularmente crítico da retórica da Administração Trump, tanto em relação à Gronelândia (território autónomo sob soberania dinamarquesa) como a outros dossiers internacionais. Para o líder sueco, a instabilidade gerada por estas posições acentuou a necessidade de os países europeus assumirem maior responsabilidade pela sua própria segurança coletiva.

“Há quem pense na NATO e pense apenas nos Estados Unidos, mas eu penso na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, nos três Estados bálticos, na Polónia, na Alemanha e no Reino Unido”, afirmou Kristersson, defendendo uma cooperação reforçada entre aliados europeus no seio da Aliança Atlântica. Embora considere que o Artigo 5.º da NATO, o princípio de defesa coletiva, continua a ser “muito forte”, admitiu que muitos aliados gostariam de ver “atos diferentes” por parte de Washington.

A mudança estratégica sueca ganha particular relevo tendo em conta a tradição de neutralidade do país, abandonada apenas após a invasão russa em larga escala da Ucrânia. Foi o próprio Kristersson quem conduziu as negociações para a adesão à NATO, um processo complexo que exigiu acordos com a Turquia, liderada por Recep Tayyip Erdoğan, e com a Hungria de Viktor Orbán, frequentemente apontado como próximo do Kremlin.

No plano nuclear, o primeiro-ministro confirmou que existem conversações em curso com França e com o Reino Unido sobre o alargamento da proteção nuclear, embora sublinhe que se encontram numa fase preliminar. “As armas nucleares francesas são exclusivamente francesas, mas Paris demonstra disponibilidade para dialogar com outros países”, explicou. Um porta-voz do Governo britânico confirmou igualmente que o tema foi discutido entre Kristersson e o primeiro-ministro Keir Starmer, sem que exista, para já, qualquer acordo concreto, calendário ou projeto definido.

Apesar da abertura ao diálogo, Kristersson procurou tranquilizar a opinião pública, garantindo que não considera necessário o destacamento de armas nucleares em território sueco em tempo de paz, nem a presença permanente de forças estrangeiras. O objetivo, insistiu, é reforçar a dissuasão e a coordenação estratégica, não transformar a Suécia num palco de armamento nuclear.

A posição do Governo tem, no entanto, suscitado críticas internas. Kerstin Bergeå, presidente da organização pacifista Svenska Freds (Sociedade Sueca para a Paz e Arbitragem) alertou que a normalização do discurso nuclear “pode transformar a Suécia num alvo” em caso de conflito. Ainda assim, Kristersson reiterou que, até ao momento, não vê qualquer necessidade operacional para a instalação de armas nucleares no país durante períodos de paz.

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