O presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell d’Andrade, admite que a elétrica portuguesa poderá alienar a sua participação na central nuclear de Trillo, em Espanha, caso o enquadramento legal o permita e o preço seja adequado. A declaração foi feita numa entrevista ao jornal espanhol Expansión, à margem do Fórum Económico Mundial, em Davos.
Segundo o gestor, a energia nuclear “não faz parte do ADN da EDP”. A empresa detém apenas 15,5% da central de Trillo e não tem controlo operacional. Ainda assim, se o enquadramento o possibilitasse, a EDP estaria disponível para estudar alternativas, incluindo a venda da posição.
Apesar disso, Stilwell sublinha que a empresa defende o cumprimento do que ficou estabelecido em 2019 no Plano Nacional Integrado de Energia e Clima (Pniec) de Espanha, que prevê o encerramento faseado das centrais nucleares entre 2028 e 2035.
Renováveis são aposta incondicional da EDP
Miguel Stilwell reforça que a estratégia da EDP continua firmemente assente nas energias renováveis, mesmo num contexto internacional em que voltam a surgir vozes favoráveis ao reforço dos hidrocarbonetos.
Em Davos, o gestor defendeu que a Europa precisa de mais ação, rapidez e assertividade para reforçar a sua competitividade, segurança e resiliência. No setor energético, aponta como principais desafios o envelhecimento das infraestruturas elétricas e o défice de investimento nas redes.
De acordo com Stilwell, por cada dólar investido na nova geração de energia, a Europa investe apenas 0,4 dólares em redes, quando deveria duplicar esse valor. Além disso, mais de 40% das redes de distribuição europeias têm cerca de 40 anos. A estes constrangimentos somam-se processos de licenciamento longos e pouco uniformes entre países.
Península Ibérica com vantagens competitivas
Para o líder da EDP, Espanha e Portugal partem com uma posição estratégica favorável no contexto europeu. Os preços da eletricidade para a indústria são cerca de 20% inferiores à média europeia, há abundância de recursos renováveis e a Península Ibérica é o maior mercado europeu de contratos de fornecimento de energia a longo prazo (PPA).
Ainda assim, subsistem entraves que limitam o potencial energético da região. Stilwell aponta a instabilidade regulatória, a elevada carga fiscal sobre o setor e a falta de investimento nas redes elétricas como obstáculos relevantes. Defende que ultrapassar estas barreiras é essencial para que Espanha e Portugal assumam a liderança na transição energética.
Redes elétricas no centro das preocupações
Um dos temas mais sensíveis em Espanha tem sido a remuneração das redes elétricas, alvo de divergências entre o setor e o regulador. Segundo Stilwell, a proposta final ficou abaixo do que estudos independentes consideravam razoável, o que é “difícil de entender”.
O gestor alerta que modernizar as redes e ligar novos consumidores e produtores, como centros de dados, exige investimentos avultados. Para atrair capital, é necessário assegurar retornos competitivos face a outros países. Caso contrário, o ritmo de investimento pode abrandar numa altura em que a Europa precisa de acelerar.
Ainda assim, considera que há tempo para corrigir o rumo. Os centros de dados já são um dos principais motores da procura de eletricidade e a Península Ibérica pode captar investimento significativo se acelerar licenciamentos, modernizar redes e garantir estabilidade regulatória.
Em 2024, 45% dos contratos PPA da EDP foram assinados com centros de dados. A empresa gere atualmente 3,3 gigawatts de contratos de fornecimento de energia renovável com este setor e está a apostar em soluções como produção junto ao consumo e solar descentralizado.
Eletrificação é chave para a competitividade europeia
No debate energético em Davos, a independência energética da Europa surge como tema central. Stilwell defende que a Europa dificilmente será competitiva se basear a sua produção em gás, que é mais caro no continente do que nos Estados Unidos ou no Médio Oriente.
A eletrificação da economia, apoiada em energias renováveis e maior flexibilidade do sistema, é vista como o caminho mais pragmático. O gestor aponta o exemplo da China, que tem apostado fortemente na eletrificação e na redução da dependência de combustíveis fósseis, tendo instalado no último ano mais capacidade renovável do que o resto do mundo em conjunto.
Para acelerar esta trajetória, a Europa precisa, na sua opinião, de alinhar rapidamente as políticas energética, fiscal e industrial. Stilwell defende que não é possível ter eletricidade competitiva se os impostos elevam os preços enquanto outras regiões oferecem créditos fiscais e apoios à indústria.
EDP quer continuar a crescer nas próximas décadas
A celebrar 50 anos de atividade, a EDP é hoje uma das dez maiores elétricas europeias. Miguel Stilwell garante que a empresa tem um rumo claro nas renováveis e nas redes elétricas e vê oportunidades atrativas nos mercados onde opera.
Orgulhoso do percurso feito, o gestor assegura que a empresa pretende continuar a crescer nas próximas décadas, apoiada numa estratégia que considera robusta e alinhada com a transição energética global.













