A distância entre o local de residência e as instituições de ensino superior, os custos associados à deslocação e alojamento e as desigualdades socioeconómicas continuam a ser obstáculos determinantes no acesso dos estudantes portugueses ao ensino superior. A conclusão resulta de um estudo agora divulgado pelo EDULOG, o think tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, que analisou os percursos de mais de 724 mil diplomados do ensino secundário em Portugal Continental ao longo da última década.
Apesar da expansão e massificação do ensino superior, o estudo evidencia que a mobilidade dos estudantes permanece profundamente desigual, refletindo diferenças territoriais e económicas que condicionam as decisões de candidatura e a possibilidade real de prosseguir estudos. De acordo com o EDULOG, a distância continua a penalizar de forma significativa os fluxos de entrada no ensino superior, sobretudo entre os diplomados dos cursos científico-humanísticos, para quem estudar longe de casa representa um custo difícil de suportar.
Contactado pela ‘Executive Digest’, Pedro Silva explicou a exigência do estudo. “Olhámos para todos os diplomados dos últimos 10 anos até 2023, por região de origem, e vimos quem é que seguiu para o ensino superior”, começou por referir o coordenador do estudo. “Não é possível dizer a percentagem de alunos que ficaram de fora, mas podemos quantificar o impacto médio. Sabemos que um aumento de 10% na distância média, cerca de 20 quilómetros, reduz o fluxo em cerca de 3,4% para alunos do científico/humanístico e 0,7% para os dos cursos profissionais. Isto porque estes tendem a escolher cursos em instituições mais próximas da sua região de origem.”
Pedro Silva relatou também que “o sistema de acesso em Portugal é mais equitativo do que o caso inglês ou americano. No entanto, ainda existem desigualdades no acesso, do ponto de vista socioeconómico como de mobilidade. Essa mobilidade pode estar associada ao aumento de custos da mesma, assim como os custos de alojamento. Apesar de o sistema ter evoluído de forma positiva [nos últimos 10 anos], ainda há barreiras. Achamos que as escolhas não deviam depender da sua localização de origem.”
Por último, o coordenador do estudo salientou que o cenário de há 10 anos era bem pior. “Aumentou a oferta, mas tem de se garantir a qualidade da oferta, esses cursos deviam ser certificados. Não obstante as desigualdades, em termos de participação no ensino superior, melhorou na última década.”
Interior com menos opções e mais custos
Nos territórios do interior, a mobilidade surge frequentemente como uma imposição e não como uma escolha. A escassez de instituições de ensino superior obriga muitos estudantes a deslocações longas ou à mudança de residência, agravando os encargos financeiros para famílias já mais vulneráveis. Já nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, onde a oferta é mais diversificada, os estudantes revelam maior sensibilidade à distância, optando maioritariamente por soluções de proximidade.
O estudo mostra ainda que os diplomados de cursos profissionais tendem a percursos mais curtos e a escolhas concentradas em institutos politécnicos, enquanto os estudantes dos cursos científico-humanísticos privilegiam universidades de maior dimensão, muitas vezes afastadas do local de origem. Esta diferença traduz-se em dificuldades acrescidas para quem dispõe de menos recursos económicos para suportar transportes, alojamento e custo de vida em cidades mais caras.
Origem socioeconómica continua a pesar
As condições socioeconómicas das famílias revelam-se um dos fatores mais determinantes na mobilidade estudantil. Municípios com maior proporção de alunos provenientes do ensino secundário privado registam fluxos mais elevados para o ensino superior, funcionando este indicador como reflexo indireto de maiores recursos familiares. Em sentido inverso, uma maior percentagem de alunos abrangidos pela ação social escolar associa-se a níveis mais reduzidos de mobilidade, evidenciando como a condição económica de partida limita as opções disponíveis.
A presença de instituições de ensino superior no município de origem surge também como um fator decisivo, não apenas pela proximidade física, mas porque aumenta a exposição dos estudantes à informação, às expectativas e às oportunidades de prosseguimento de estudos, reduzindo barreiras psicológicas e financeiras.
Medicina expõe desigualdades no acesso a cursos de topo
A análise específica ao curso de Medicina reforça estas conclusões. Apesar de a distância ter um impacto menos penalizador neste caso, dada a forte atratividade e prestígio da formação, os fatores socioeconómicos assumem um peso ainda maior. Um aumento da proporção de alunos do ensino privado no município de origem está claramente associado a uma maior probabilidade de acesso a Medicina, evidenciando como a elevada seletividade do curso tende a reproduzir desigualdades pré-existentes.
Segundo o EDULOG, este padrão demonstra que, mesmo quando os estudantes aceitam percorrer maiores distâncias, persistem barreiras económicas e sociais que condicionam o acesso às formações mais competitivas.
Um sistema que continua a penalizar a origem
Para Alberto Amaral, membro do conselho consultivo do EDULOG, os resultados mostram que “apesar dos progressos alcançados, a mobilidade dos estudantes no ensino superior continua fortemente dependente das condições socioeconómicas das famílias e do local onde vivem”. O responsável sublinha que, em muitas regiões, estudar fora continua a ser financeiramente incomportável, o que compromete a equidade do sistema e limita a coesão territorial.
O estudo conclui que a mobilidade estudantil em Portugal resulta de um equilíbrio frágil entre constrangimentos geográficos, recursos económicos e características institucionais, colocando desafios sérios à justiça no acesso ao ensino superior. Sem políticas públicas capazes de reduzir estes obstáculos, alerta o EDULOG, a origem geográfica e social continuará a ser um fator decisivo no percurso académico de milhares de estudantes portugueses.













