“Síndrome do tupperware”: a rotina que está a esgotar milhares de trabalhadores nas grandes cidades

Uma simples rotina doméstica transformou-se no símbolo de um problema maior. Preparar a marmita ao final do dia, depois de longas horas de trabalho e deslocações demoradas, é o gesto que milhões de pessoas repetem diariamente.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 8, 2026
10:00

Uma simples rotina doméstica transformou-se no símbolo de um problema maior. Preparar a marmita ao final do dia, depois de longas horas de trabalho e deslocações demoradas, é o gesto que milhões de pessoas repetem diariamente. Agora, uma carta publicada num jornal espanhol deu nome a essa realidade: o chamado “síndrome do tupperware”, expressão usada para descrever a sensação de viver apenas para trabalhar, sem tempo ou energia para mais nada.

O testemunho, assinado por Amanda Alonso, foi enviado para a secção de Cartas ao Diretor do El País e acabou por ganhar grande visibilidade nas redes sociais, depois de vários utilizadores partilharem o texto.

Uma rotina que se repete todos os dias
A autora descreve um quotidiano familiar a muitos trabalhadores urbanos: sair cedo de casa, enfrentar transportes cheios, cumprir oito horas ou mais ao computador e regressar já sem forças — mas ainda com a obrigação de preparar a refeição do dia seguinte para levar para o emprego.

É a esta sucessão de tarefas que chama “síndrome do tupperware”, que define como “a condenação da classe trabalhadora do século XXI”.

No texto, escreve: “Há dias, uma amiga perguntava-me se era isto tudo o que podíamos esperar da vida: madrugar, amontoarmo-nos no autocarro para chegar ao trabalho, passar oito horas em frente ao computador e voltar a casa para preparar a marmita do dia seguinte.”

Salários baixos, rendas altas e falta de tempo
Amanda Alonso refere que esta frustração se tornou recorrente entre amigas com formação superior e vocação profissional, mas que se sentem presas a uma realidade económica sufocante.

Segundo a própria: “Agora todas vivemos sufocadas por rendas incomportáveis, salários precários e empregos que nos impedem de escolher onde queremos viver. E, nas poucas horas livres de segunda a sexta-feira, somos prisioneiras do síndrome do tupperware.”

A autora sustenta que até pequenos momentos de lazer se tornaram um luxo. Ir ao cinema ou sair para beber algo pode significar um desequilíbrio no orçamento mensal, já que implica abdicar de cozinhar e gastar dinheiro em refeições fora de casa.

Como escreve: “Quebrar a rotina numa tarde, ir ao cinema ou beber uma cerveja e não cozinhar ao chegar a casa, é um privilégio que só podem ter aqueles para quem comer fora do escritório ou encomendar comida não representa um rombo nas contas do mês.”

No final da carta, deixa um apelo simples, mas contundente: “Oxalá um dia deixemos de entregar todo o nosso tempo e recursos ao trabalho e comecemos a viver dele com liberdade.”

A publicação ganhou novo fôlego quando foi partilhada na rede social X por uma utilizadora identificada como Florencia María, que confessou: “Este texto deprimiu-me imenso porque tenho a 100% o síndrome do tupperware.”

Em poucas horas, a partilha ultrapassou dezenas de milhares de visualizações, milhares de “gostos” e centenas de republicações, gerando uma onda de comentários de identificação.

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