A era do dinheiro fácil acabou e os mercados estão a sentir um aperto justificado pelo salto mais acentuado nas taxas de juros nas últimas décadas.
O colapso do Silicon Valley Bank (SVB), nos Estados Unidos, foi um alerta para os mercados de que o aperto monetário vai provavelmente trazer mais problemas. Desde o final de 2021, as grandes economias, incluindo Estados Unidos, Zona Euro e Austrália, aumentaram as taxas em quase 3.300 pontos-base coletivamente.
Mas há mais pontos de pressão em potencial.
Os bancos continuam no topo da lista das preocupações, depois do colapso do SVB assim como a fusão forçada do Credit Suisse com o UBS, que provocaram turbulências em todo o setor bancário. Os investidores estão em alerta, segundo garantiu esta quinta-feira a agência ‘Reuters’, para o facto de outros bancos puderem estar a acumular perdas não realizadas em títulos do Governo, cujos preços caíram de forma acentuada com a subida das taxas.
As perdas da carteira de títulos do SVB destacaram riscos semelhantes para as gigantescas participações em títulos estrangeiros dos credores japoneses, que carregam mais de 4 trilhões de ienes (30 mil milhões de dólares) em perdas não realizadas. As ações dos bancos japoneses, europeus e norte-americanos, embora tenham saído de mínimas recentes, ainda estão bem abaixo dos níveis vistos pouco antes do colapso do SVB.
O colapso do banco americano provou que o stress no setor da tecnologia pode-se espalhar rapidamente por toda a economia. As gigantes tecnológicas estão a inverter a ‘exuberância’ da era pandémica, com sucessivos despedimentos, após anos de contratações.
Mas há mais: os mercados imobiliários nos centros tecnológicos dos Estados Unidos, como Seattle e San Jose, estão a cair mais rapidamente do que em outras regiões, referiu a corretora de imobiliário Redfin Corp. Está pois sob atenção dos investidores, cautelosos com o stress global, que mantêm a vista em Silicon Valley, uma vez que tumultos nesse importante indústria costumam causar tremores secundários na Europa e em outros mercados.
A subida das taxas é uma ameaça para as empresas com grau de subinvestimento, que precisam de pagar ao refinanciar as suas dívidas e assim correr riscos de incumprimento. A S&P espera que as taxas de inadimplência nos Estados Unidos e na Europa atinjam 3,75% e 3,25%, respetivamente, até setembro, mais que o dobro dos 1,6% e 1,4% de setembro de 2022. Segundo o estrategista do Deutsche Bank, Jim Reid, “as empresas estão mais alavancadas agora do que durante a grande crise financeira e este ciclo pode ser mais focado em inadimplência corporativa versus finanças”.
As criptomoedas também são parte do problema: depois de terem beneficiado de um influxo de dinheiro durante a época fácil, sofreram com o aumento das taxas em 2022. O colapso de várias empresas criptográficas de alto perfil deixou os clientes com grandes perdas, enquanto aperta o controlo dos Governos nestes mercados.
O impacto nos mercados imobiliários sensíveis às taxas ainda está por ser medido. Segundo o escritório de advogados Weil Gotshal & Manges, dos Estados Unidos, o setor continua a ser o que apresenta maiores dificuldades, por alguma margem, tanto nos EUA como na Europa.
Os economistas estão preocupados que a propriedade comercial possa ser o próximo sapato a cair se os problemas bancários globais desencadearem uma crise de crédito mais ampla para o setor que já estava sob pressão. A Capital Economics indicou que os preços dos imóveis comerciais nos EUA caíram entre 4 e 5% em relação ao pico em meados de 2022 – é esperada uma queda adicional de entre 18 e 20%.














