Na Dinamarca, milhares de consumidores estão a recorrer a uma nova aplicação móvel para identificar produtos de origem americana e encontrar alternativas europeias. A ferramenta, criada por dois jovens dinamarqueses, surgiu como resposta direta às tensões diplomáticas entre Copenhaga e Washington, alimentadas pelas ameaças do presidente dos Estados Unidos de se apoderar da Gronelândia e de impor tarifas sobre produtos europeus, relatou o jornal ‘Público’.
A aplicação chama-se ‘UdenUSA’ — expressão que significa literalmente “Sem os EUA” — e foi desenvolvida por Jonas Pipper e Malthe Henseberg, ambos na casa dos 20 anos. Através da câmara do telemóvel, os utilizadores podem digitalizar códigos de barras para saber o país de origem dos produtos e receber sugestões de alternativas que privilegiem bens europeus ou provenientes de outras regiões que não os Estados Unidos.
“Devolver o controlo” ao consumidor
No site oficial da aplicação, os criadores assumem abertamente a motivação política e ética do projeto. “Sempre que compra um produto americano, apoia indiretamente um sistema que vai contra muitos dos valores que prezamos na Europa”, lê-se na apresentação da UdenUSA. A nota sublinha ainda a dificuldade em identificar a verdadeira origem de muitos bens e defende que a aplicação “devolve o controlo” ao consumidor, tornando o boicote mais simples no quotidiano.
Segundo Jonas Pipper, a ideia começou a ganhar forma depois de ter descoberto o grupo de Facebook ‘Boycott USA’, que em poucos meses reuniu cerca de 100 mil membros. “Percebemos que muitas pessoas queriam boicotar, mas não tinham forma de saber a verdadeira origem dos produtos”, explicou o jovem à emissora pública dinamarquesa ‘DR1’.
Sucesso imediato nas lojas e nas descargas
A adesão à aplicação foi rápida. A ‘UdenUSA’ já foi descarregada por dezenas de milhares de utilizadores e tornou-se a aplicação gratuita mais instalada no país, segundo dados citados pelo ‘Irish Times’. Para já, a app encontra-se disponível apenas para dispositivos iOS, embora os criadores não excluam uma futura expansão a outras plataformas.
No próprio site, os responsáveis reconhecem a ironia de recorrerem a redes sociais americanas para promover a iniciativa. “Talvez pareça irónico, mas queremos alcançar o maior número de pessoas possível. Estamos a usar as armas do inimigo contra ele”, escrevem.
Um boicote que já vinha de trás
O movimento de boicote a produtos dos Estados Unidos não é totalmente novo na Dinamarca. Há alguns meses, o Grupo Salling, a maior cadeia de supermercados do país, passou a assinalar com uma estrela os produtos de origem europeia. O impacto foi imediato: muitos desses produtos esgotaram rapidamente, enquanto os de origem americana permaneceram nas prateleiras.
Até o setor automóvel sentiu os efeitos. Durante o período em que Elon Musk esteve associado à administração Trump e em que as ameaças à Gronelândia se intensificaram, a Tesla saiu temporariamente do top 10 dos carros elétricos mais vendidos no país. O recuo foi particularmente significativo num dos mercados europeus mais avançados em mobilidade elétrica, como recorda a imprensa internacional. Com o afastamento de Musk da cena política, a marca acabou por recuperar gradualmente a sua posição.














