Sem nova estratégia da Europa, guerra na Ucrânia pode tornar-se “eterna”, alerta antigo secretário-geral da NATO

O antigo secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, alertou que a Ucrânia enfrenta o risco de uma “guerra sem fim” se a Europa não intensificar de forma decisiva a pressão sobre a Rússia. Em declarações ao The Guardian esta quinta-feira, Rasmussen defendeu a criação de um escudo antimíssil e antidrone em território da NATO, destinado a proteger infraestruturas ucranianas, e apelou ao envio de uma força europeia de proteção para o terreno.

Pedro Gonçalves
Novembro 6, 2025
11:48

O antigo secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, alertou que a Ucrânia enfrenta o risco de uma “guerra sem fim” se a Europa não intensificar de forma decisiva a pressão sobre a Rússia. Em declarações ao The Guardian esta quinta-feira, Rasmussen defendeu a criação de um escudo antimíssil e antidrone em território da NATO, destinado a proteger infraestruturas ucranianas, e apelou ao envio de uma força europeia de proteção para o terreno.

Rasmussen, que liderou a Aliança Atlântica entre 2009 e 2014 e foi primeiro-ministro da Dinamarca entre 2001 e 2009, sublinhou que países como a Polónia poderiam acolher sistemas de defesa aérea da NATO. “Temos de ajudar os ucranianos a proteger-se dos mísseis e drones russos, construindo um escudo aéreo que lhes permita abater essas ameaças. Os países da NATO vizinhos da Ucrânia podem ser a base para esse sistema de defesa”, afirmou.

Segundo o antigo dirigente, esta medida enviaria uma mensagem inequívoca a Moscovo: qualquer ataque contra a Ucrânia seria interpretado como um ataque à própria NATO.

Rasmussen defende ainda o envio de uma força de proteção europeia antes de qualquer acordo de cessar-fogo, lamentando que a ideia de uma “coligação dos dispostos” para apoiar Kiev se tenha transformado numa “coligação dos que esperam”. “Se não mudarmos de estratégia, olharemos para uma guerra eterna. Putin não tem incentivo para negociar a paz enquanto acreditar que pode vencer no campo de batalha. É preciso mudar de velocidade e de mentalidade”, afirmou.

Durante uma digressão por várias capitais europeias, incluindo Londres, Rasmussen reuniu-se com o conselheiro de segurança nacional britânico, Jonathan Powell, para discutir garantias de segurança para a Ucrânia. Segundo explicou, a oferta de garantias “sólidas” semelhantes às que os Estados Unidos concederam recentemente ao Qatar, após o ataque israelita a Doha, poderia ajudar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, a justificar um eventual acordo de paz perante o seu povo — mesmo que envolvesse a perda de território.

O antigo secretário-geral da NATO defendeu ainda que a Ucrânia deve receber mísseis de longo alcance para atingir alvos estratégicos dentro da Rússia. Considerou possível reabrir a discussão sobre o fornecimento de mísseis de cruzeiro norte-americanos Tomahawk, apesar de o presidente Donald Trump não apoiar essa medida. Rasmussen sugeriu que, se a Alemanha desse o primeiro passo e fornecesse à Ucrânia os seus próprios mísseis Taurus, isso “enviaria um sinal claro através do Atlântico e colocaria pressão sobre a Casa Branca”.

“É do forte interesse da Alemanha forçar Putin a negociar. O Taurus é o meio para o fazer”, sublinhou Rasmussen.

A política de Washington em relação à Ucrânia mantém-se incerta depois de Trump ter recuado na ideia de enviar Tomahawks e, em vez disso, ter anunciado uma segunda cimeira com o presidente russo. Pouco depois, cancelou o encontro, afirmando não acreditar que Vladimir Putin esteja “sério quanto à paz”, e impôs novas sanções às maiores petrolíferas russas, a Rosneft e a Lukoil.

O presidente norte-americano parece agora inclinar-se para uma postura mais distanciada, permitindo que “as duas partes lutem até ao fim”, segundo observadores diplomáticos.

Rasmussen lamentou que a Europa ainda não tenha despertado para a magnitude da ameaça russa e defendeu a utilização de bens congelados da Rússia como base para o financiamento da reconstrução e armamento da Ucrânia. “Precisamos de descongelar os 150 mil milhões de euros de ativos russos retidos na Euroclear e utilizá-los como garantia para um empréstimo destinado à compra de armas e ao início da reconstrução”, explicou.

O plano enfrentou objeções no último Conselho Europeu, sobretudo por parte da Bélgica, onde está sediada a Euroclear. Bruxelas teme que, na ausência de um acordo formal sobre reparações de guerra por parte de Moscovo, os Estados da União Europeia tenham de garantir o reembolso do empréstimo. Rasmussen, contudo, acredita que os líderes europeus conseguirão ultrapassar as resistências e avançar com o plano.

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