Num contexto de agravamento dos fenómenos meteorológicos extremos, Portugal surge como um dos países europeus onde os seguros contra cheias permanecem inacessíveis precisamente para quem vive nas zonas de maior risco. A dificuldade em subscrever este tipo de proteção financeira compromete a capacidade de resposta e recuperação das famílias perante episódios de precipitação intensa, grandes inundações urbanas ou tempestades severas, como a recente Kristin.
O retrato consta do mais recente relatório da Agência Europeia do Ambiente, que descreve um continente simultaneamente mais exposto, desigual e ainda insuficientemente preparado para enfrentar os impactos das alterações climáticas. O documento identifica Portugal, a par da Alemanha, da Polónia e de partes da Croácia, como um dos países onde os residentes em áreas vulneráveis encontram obstáculos significativos no acesso a seguros contra inundações, uma limitação com efeitos diretos na recuperação económica após catástrofes naturais.
País entre os mais afetados por incêndios e eventos extremos
Além das cheias, o país destaca-se pelos impactos dos incêndios florestais. Segundo o relatório, 35,2% dos portugueses afirmam ter sido afetados por fogos ou pelo fumo associado nos últimos cinco anos — um valor mais de quatro vezes superior à média europeia, que não ultrapassa os 8%. Integrado na região do Sul da Europa, Portugal pertence ao grupo onde a maior percentagem de cidadãos, 86,1%, diz ter sentido efeitos recentes do clima extremo.
As preocupações mantêm-se elevadas: 61% receiam temperaturas extremas, 58,8% temem incêndios e 50,2% demonstram ansiedade face ao risco de cheias. Paradoxalmente, o país apresenta também níveis elevados de perceção das medidas de alerta, com mais de 90% dos inquiridos a referirem ter recebido avisos meteorológicos por SMS ou através dos meios de comunicação, e mais de 70% a reconhecer campanhas públicas de sensibilização.
Custos impedem medidas de proteção
Apesar desta maior consciencialização, muitos agregados continuam sem meios financeiros para se protegerem. Um quinto dos inquiridos europeus não dispõe de qualquer medida doméstica de adaptação, como ventilação adequada, proteção contra inundações, recolha de águas pluviais ou seguros contra fenómenos extremos. Quase 40% admitem não conseguir manter a habitação fresca durante o verão, evidenciando situações de pobreza energética.
As dificuldades são particularmente acentuadas entre famílias com menores rendimentos, que reportam problemas mais frequentes no acesso a água segura e menor capacidade para investir em soluções preventivas. Como sintetiza Ivailo Kalfin, diretor executivo da Eurofound, “as alterações climáticas afetam a vida de quatro em cada cinco cidadãos da União Europeia, mas apenas um quarto está equipado com instrumentos adequados para lidar com elas”.
Investimento insuficiente na adaptação climática
O estudo assenta em mais de 27 mil respostas recolhidas em 27 países europeus e confirma que a maioria da população já sofreu impactos diretos do aquecimento global, do calor extremo às cheias e incêndios. Ainda assim, muitos cidadãos não identificam projetos locais de adaptação ou resiliência.
A diretora executiva da Agência Europeia do Ambiente, Leena Ylä-Mononen, defende que “o bem-estar e a prosperidade da sociedade europeia num clima que muda rapidamente exigem uma ampla implementação de medidas de prevenção e preparação”. A nível global, o investimento anual em adaptação ronda os 160 mil milhões de euros, mas seria necessário quase o triplo para proteger as populações expostas. Portugal também investe menos de metade do recomendado e terá de multiplicar por dez o esforço financeiro até 2050 para enfrentar o aumento do risco de calor, seca e inundações.
Sem soluções acessíveis, como seguros contra cheias, as famílias que vivem nas zonas mais vulneráveis continuam, assim, mais expostas aos prejuízos económicos dos desastres naturais, agravando desigualdades num cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.














