Um jornalista foi impedido de continuar a questionar deputados do PSD nos corredores da Assembleia da República depois de ter sido cercado por elementos do corpo de segurança do Parlamento, numa atuação que acabou por levantar dúvidas sobre os limites da intervenção dos serviços de segurança no trabalho jornalístico. O episódio ocorreu durante uma reportagem sobre o sentido de voto dos deputados sociais-democratas na segunda volta das eleições presidenciais, num contexto em que o partido e o Governo optaram por não assumir uma posição oficial.
Segundo a revista Sábado, o repórter encontrava-se a trabalhar em espaços onde os jornalistas estão autorizados a circular e a abordar deputados, quando foi alvo de uma queixa interna que levou à intervenção de três agentes de segurança afetos à Assembleia da República, culminando na ordem para cessar as perguntas aos parlamentares.
A reportagem decorria há cerca de um dia e meio e incidia exclusivamente sobre deputados do PSD, quando, no dia 21 de janeiro, o presidente do grupo parlamentar, Hugo Soares, terá informado o jornalista de que tinha dito aos seus deputados para não falarem com ele. A partir desse momento, segundo o relato, os deputados passaram a recusar respostas e uma assessora do grupo parlamentar foi colocada à porta do gabinete. Poucas horas depois, o jornalista foi abordado por agentes do serviço de segurança, que solicitaram a sua identificação e questionaram a natureza do trabalho que estava a realizar.
Após uma primeira abordagem por dois agentes, o jornalista foi retido até à chegada de um superior, identificado como “tenente Lopes”, que lhe comunicou que tinham existido queixas de deputados por se sentirem incomodados com as perguntas. Apesar de questionado, o responsável recusou identificar os autores da queixa e informou que o jornalista estaria a realizar um “inquérito a deputados”, o que, segundo indicou, exigiria autorização formal dos serviços de comunicação da Assembleia da República, determinando que não poderia prosseguir com as perguntas.
O caso foi comparado a um episódio ocorrido em 2019, envolvendo a então deputada Joacine Katar Moreira, quando o secretário-geral do Parlamento à data, Albino de Azevedo Soares, afirmou que “não estava em causa a segurança física” e que não compete aos serviços de segurança evitar perguntas dos jornalistas, sublinhando que “também não é normal o serviço de segurança prestar-se a um serviço para o qual não está incumbido”.
Questionada sobre o sucedido, a atual secretária-geral da Assembleia da República, Anabela Cabral Ferreira, reconheceu que a abordagem pode ter sido percecionada como inibidora, justificando a atuação com uma “comunicação interna sobre um comportamento considerado suspeito” e assumindo um reforço das orientações dadas aos elementos da segurança. Hugo Soares, por sua vez, garantiu não ter qualquer responsabilidade na atuação dos serviços de segurança e disse desconhecer quem apresentou a queixa.














