Satélites, drones e táxis aéreos: investir fora da Terra é a nova fronteira da economia global

Fluxo crescente de capital para este setor, apontou o site ‘El Economista’, reflete uma mudança estrutural: as oportunidades de negócio já não se esgotam à superfície do planeta. O céu transforma-se numa nova camada produtiva, onde convergem defesa, comunicações, transporte, energia e software

Francisco Laranjeira
Fevereiro 10, 2026
15:08

Durante o último ano, o espaço voltou a ocupar um lugar central na imaginação dos mercados. Não apenas o espaço profundo da exploração interplanetária, mas sobretudo o espaço próximo da Terra — satélites, órbita baixa, foguetes reutilizáveis e novas formas de mobilidade aérea. Um território que durante décadas foi visto como pano de fundo tecnológico começa agora a ser encarado como infraestrutura económica por explorar.

O fluxo crescente de capital para este setor, apontou o site ‘El Economista’, reflete uma mudança estrutural: as oportunidades de negócio já não se esgotam à superfície do planeta. O céu transforma-se numa nova camada produtiva, onde convergem defesa, comunicações, transporte, energia e software.

O efeito SpaceX e a redefinição do imaginável

Grande parte deste renovado interesse tem um catalisador evidente: a SpaceX. A empresa de Elon Musk demonstrou que tecnologias consideradas inviáveis — como foguetes reutilizáveis ou constelações de satélites — podem tornar-se modelos de negócio escaláveis. A expectativa em torno de uma eventual entrada em bolsa, potencialmente a maior de sempre, amplificou ainda mais o entusiasmo dos investidores.

Mais do que os resultados financeiros, a SpaceX consolidou uma nova mentalidade: executar rapidamente, escalar sem hesitação e redefinir os limites do possível. Essa lógica estende-se hoje muito além da empresa ou mesmo do setor espacial tradicional.

Do espaço profundo ao espaço urbano

Quando uma grande narrativa domina o mercado, os seus efeitos propagam-se. O interesse já não se limita a lançadores e satélites, mas abrange áreas adjacentes: defesa orbital, mobilidade aérea avançada, aeronaves elétricas e novas soluções para o transporte urbano.

Neste contexto, o céu deixa de ser apenas um meio físico e passa a ser entendido como uma nova camada económica, situada entre as cidades congestionadas e a aviação convencional. É aqui que surgem os eVTOL — aeronaves elétricas de descolagem e aterragem vertical — como uma tentativa de criar um novo ecossistema de mobilidade.

eVTOL: uma indústria ainda imatura, mas estrutural

A ideia de táxis aéreos não é nova. O que muda agora é a convergência de fatores que a tornam plausível: eletrificação, automação, software avançado, pressão regulatória para reduzir emissões e um problema real de congestionamento urbano.

Apesar disso, trata-se de um setor ainda imaturo. As receitas são limitadas, os custos elevados e os calendários de certificação longos. A trajetória até à rentabilidade será marcada por atrasos, aumentos de capital e consolidação. Ainda assim, como noutras disrupções tecnológicas, é nesta fase inicial que se definem os futuros vencedores — e os inevitáveis perdedores.

Empresas cotadas como termómetro do setor

Algumas empresas já listadas em bolsa funcionam como barómetros desta nova economia aérea. Nos Estados Unidos, projetos como a Archer Aviation ou a Joby Aviation refletem abordagens distintas: uma mais pragmática e orientada para parcerias industriais, outra mais silenciosa, mas avançada em certificação e horas de voo.

Na Europa, a Vertical Aerospace ilustra bem o dilema estrutural do continente em setores disruptivos: capacidade de engenharia e ambição industrial confrontadas com limitações de capital.

Fora do segmento eVTOL, a Rocket Lab destaca-se como exemplo raro de execução bem-sucedida num setor altamente complexo, já com lançamentos regulares e receitas recorrentes, reforçando a ideia de que o espaço deixou de ser apenas promessa.

China avança a um ritmo diferente

O caso da chinesa EHang evidencia outra realidade: o futuro não chega ao mesmo tempo nem da mesma forma a todas as geografias. Enquanto no Ocidente o debate se centra em certificações e prazos, na China já existem operações comerciais de aeronaves autónomas em ambiente urbano.

A diferença não é apenas tecnológica, mas também regulatória e política. A velocidade de decisão torna-se, aqui, uma vantagem competitiva determinante.

O verdadeiro valor pode estar fora da bolsa

Apesar da atenção mediática sobre empresas cotadas, é no universo privado que se concentra parte significativa da criação de valor. Projetos como a Wisk Aero, apoiados por grandes grupos da indústria aeroespacial, avançam com foco em segurança, automação e certificação, longe da pressão dos mercados financeiros.

Estas empresas não são negociadas em bolsa, mas encaixam na lógica de aquisições futuras ou de estreias em mercado num horizonte de longo prazo. Tal como a SpaceX demonstrou, o fator decisivo não é a narrativa, mas a capacidade de transformar tecnologia em negócio sustentável.

Uma nova fronteira económica

O que emerge deste movimento é uma mudança de escala: o crescimento económico já não está confinado à Terra. O espaço próximo — acima das cidades, nas órbitas baixas, nas novas rotas aéreas — começa a ser tratado como um ativo estratégico.

Não se trata de oportunidades imediatas, mas de sementes lançadas para um horizonte de décadas. Muitas falharão. Algumas poucas redefinirão setores inteiros. E é nesse desfasamento temporal que o mercado volta, uma vez mais, a projetar o futuro.

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