Salário real de Christine Lagarde é mais de 50% superior ao divulgado pelo BCE

A remuneração total de Christine Lagarde enquanto presidente do Banco Central Europeu (BCE) é mais de 50% superior ao salário oficialmente divulgado pela instituição.

Pedro Gonçalves
Janeiro 2, 2026
11:45

A remuneração total de Christine Lagarde enquanto presidente do Banco Central Europeu (BCE) é mais de 50% superior ao salário oficialmente divulgado pela instituição. De acordo com uma análise do Financial Times, a líder da autoridade monetária europeia terá recebido cerca de 726 mil euros em 2024, um valor que excede em aproximadamente 56% o salário base anual de 466 mil euros reportado pelo BCE no seu relatório anual.

Este montante coloca Christine Lagarde a ganhar quase quatro vezes mais do que o presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Jay Powell, cujo salário é definido por lei federal norte-americana e está atualmente limitado a 203 mil dólares (cerca de 172.720 euros). Apesar de o rendimento de Lagarde ser modesto quando comparado com o dos presidentes executivos de grandes empresas europeias cotadas, a análise evidencia as limitações da transparência salarial no BCE.

Ao contrário das empresas cotadas na União Europeia, o BCE não está sujeito às regras rigorosas de divulgação remuneratória que obrigam à apresentação de um “quadro completo e fiável da remuneração” individual dos seus administradores. Esta diferença tem motivado críticas políticas. Fabio De Masi, eurodeputado e presidente do partido populista de esquerda alemão BSW, classificou como “escandaloso” o facto de o presidente executivo do Deutsche Bank, Christian Sewing, divulgar informação mais detalhada sobre o seu salário do que a presidente do BCE. Sewing recebeu 9,8 milhões de euros em 2024.

Para De Masi, o BCE deveria adotar padrões idênticos aos previstos na legislação europeia aplicável às empresas cotadas. “A presidente do BCE e funcionária mais bem paga da União Europeia deveria representar o padrão de ouro da responsabilização”, defendeu o eurodeputado.

Só o salário base de Christine Lagarde faz dela a dirigente mais bem paga da União Europeia. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, aufere um salário base anual cerca de 21% inferior. A este vencimento juntam-se benefícios adicionais estimados em cerca de 135 mil euros anuais, relacionados com habitação e outras despesas, valores que não são discriminados individualmente no relatório anual do BCE.

Além disso, Lagarde recebe aproximadamente 125 mil euros anuais pelo seu cargo como um dos 18 membros do conselho de administração do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), frequentemente designado como o “banco central dos bancos centrais”. Este rendimento não é mencionado no relatório do BCE e o próprio BIS apenas divulga valores agregados relativos à remuneração dos membros do seu conselho. Em contraste, Jay Powell não recebe qualquer remuneração pelo seu lugar no BIS, uma vez que a legislação dos EUA proíbe titulares de cargos públicos de receber salários de entidades estrangeiras.

Face à ausência de dados consolidados e detalhados, o Financial Times baseou os seus cálculos nos relatórios anuais do BCE e do BIS, bem como num documento técnico que define os “termos e condições” da remuneração dos altos responsáveis do banco central europeu. A estimativa não inclui contribuições para a pensão de Lagarde, nem os custos associados ao seu plano de saúde e seguros, por falta de informação disponível.

O BCE confirmou ter recebido a metodologia e os resultados da análise, mas recusou comentar os valores apurados. Em comunicado, a instituição afirmou que o salário da presidente foi definido por um comité de remunerações e pelo Conselho do BCE aquando da criação da instituição, em 1998, acrescentando que “a única alteração desde então tem sido o ajustamento salarial anual aplicável a todos os funcionários do BCE”. O banco central sustenta ainda que o seu nível de divulgação “está alinhado com o de muitas outras instituições públicas internacionais” e que a transparência tem vindo a aumentar ao longo do tempo.

A importância de uma remuneração elevada para banqueiros centrais é sublinhada por diversos estudos académicos, que defendem que a independência financeira pessoal é parte integrante da autonomia necessária para combater eficazmente a inflação. Um inquérito do Fundo Monetário Internacional, realizado em 2004, concluiu que altos responsáveis de bancos centrais devem ser pagos a níveis comparáveis aos do sector privado e protegidos de cortes salariais durante o mandato, de forma a “evitar influências indevidas”.

Para Guido Ferrarini, professor emérito de Direito da Universidade de Génova e especialista europeu em remuneração, o nível global de rendimentos de Lagarde “é o que seria expectável”, tendo em conta “o grau de responsabilidade de instituições como o BCE e a necessidade de atrair talento”. Ainda assim, considera que a divulgação remuneratória do conselho executivo do BCE é de “qualidade bastante fraca” e que “existem muitos componentes que deveriam ser melhor explicitados”, apontando a prática das empresas cotadas como a referência adequada.

Contabilizando pagamentos extraordinários e eventuais compensações de transição nos dois anos seguintes ao fim do mandato, dependentes da função que venha a desempenhar, Christine Lagarde poderá receber até 6,5 milhões de euros ao longo dos seus oito anos como presidente do BCE, o equivalente a cerca de 810 mil euros por ano. A partir de 2030, poderá ainda auferir uma pensão anual estimada em cerca de 178 mil euros paga pelo banco central europeu.

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