Ryanair deixa de voar para os Açores a partir de março e responsabiliza ANA e Governo

A Ryanair anunciou que irá encerrar todos os voos de e para os Açores a partir de 29 de março de 2026, uma decisão que, segundo a companhia aérea, resultará na perda de seis rotas e de cerca de 400 mil passageiros por ano no arquipélago.

Pedro Gonçalves
Novembro 20, 2025
11:31

A Ryanair anunciou hoje que irá encerrar todos os voos de e para os Açores a partir de 29 de março de 2026, uma decisão que, segundo a companhia aérea, resultará na perda de seis rotas e de cerca de 400 mil passageiros por ano no arquipélago. A decisão foi revelada esta quinta-feira num comunicado divulgado pela transportadora, onde a empresa descreve o cenário como insustentável devido ao aumento de custos operacionais em Portugal.

No comunicado, a transportadora irlandesa é explícita quanto às razões que a levaram a abandonar a operação açoriana, responsabilizando diretamente a ANA – Aeroportos de Portugal, controlada pelo grupo francês Vinci, e o Governo português. A Ryanair afirma que irá cancelar os voos devido às “elevadas taxas aeroportuárias (definidas pelo monopólio aeroportuário francês ANA) e à inação do Governo português, que aumentou as taxas de navegação aérea em +120% após a Covid e introduziu uma taxa de viagem de 2€, numa altura em que outros Estados da UE estão a abolir taxas de viagem para garantir o crescimento de capacidade, que é escasso”.

A companhia reforça que “o monopólio da ANA não tem qualquer plano para aumentar a conectividade de baixo custo com os Açores”. Afirma ainda que a gestora aeroportuária “não enfrenta concorrência em Portugal – o que lhe permitiu obter lucros monopolistas, aumentando as taxas aeroportuárias portuguesas sem qualquer penalização – numa altura em que aeroportos concorrentes noutros países da UE estão a reduzir taxas para estimular o crescimento”.

A Ryanair exige que o Executivo intervenha: “O Governo português deve intervir e garantir que os seus aeroportos – uma parte crítica da infraestrutura nacional, especialmente numa região insular como os Açores – sirvam para beneficiar o povo português e não um monopólio aeroportuário francês”.

Críticas ao enquadramento europeu e ao impacto das taxas ambientais
A companhia estende as críticas ao plano europeu para emissões, alegando que as regiões ultraperiféricas estão a ser prejudicadas. “A competitividade das regiões europeias mais remotas – como os Açores – está a ser prejudicada pelas taxas ambientais anticoncorrenciais da UE”, afirma no comunicado.

A transportadora acusa o sistema ETS (Emission Trading System) de penalizar exclusivamente voos intraeuropeus: “O ETS da UE aplica-se apenas a voos intraeuropeus, enquanto voos de longo curso, mais poluentes, para os EUA e Médio Oriente estão excluídos”. Sublinha ainda que, “em vez de tornar a aviação europeia mais competitiva (reduzindo o ETS), a UE expandiu o ETS para abranger regiões remotas como os Açores – isentando concorrentes não pertencentes à UE, como a Turquia e Marrocos”.

A Ryanair diz voltar a apelar à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, “para garantir condições equitativas nas taxas ambientais da UE, trazendo imediatamente as taxas ETS para níveis equivalentes aos do CORSIA”.

O diretor-comercial (CCO) da Ryanair, Jason McGuinness, surge no comunicado com críticas particularmente duras, sublinhando que os custos tornaram a operação inviável.

“Estamos desapontados por o monopólio aeroportuário francês ANA continuar a aumentar as taxas aeroportuárias portuguesas para encher os seus bolsos, à custa do turismo e do emprego em Portugal – particularmente nas ilhas portuguesas. Como resultado direto destes custos crescentes, não tivemos alternativa senão cancelar todos os voos para os Açores a partir de 29 de março de 2026 e realocar esta capacidade para aeroportos de menor custo noutros pontos da vasta rede do Grupo Ryanair na Europa.”

McGuinness refere ainda aumentos acumulados desde a pandemia: “Esta perda de conectividade de baixo custo com os Açores é resultado direto do operador aeroportuário monopolista francês – VINCI – que impõe taxas aeroportuárias excessivas em Portugal (as quais aumentaram até 35% desde a Covid) e das taxas ambientais anticoncorrenciais impostas pela UE, que isentam voos de longo curso mais poluentes para os EUA e Médio Oriente, em detrimento de regiões remotas da UE como os Açores.”

E sublinha o impacto da retirada após uma década de operação contínua: “Após 10 anos de operações da Ryanair durante todo o ano, uma das regiões mais remotas da Europa irá agora perder voos diretos de baixo custo para Londres, Bruxelas, Lisboa e Porto devido às elevadas taxas da ANA e à inação do Governo português.”

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