Rússia tem novo plano para mergulhar a Ucrânia na escuridão total este inverno

A Ucrânia enfrenta o início do terceiro inverno de guerra sob a ameaça de uma ofensiva ainda mais destrutiva contra a sua infraestrutura energética, numa estratégia russa que pretende provocar apagões prolongados e quebrar a resistência da população.

Pedro Gonçalves
Novembro 24, 2025
12:23

A Ucrânia enfrenta o início do terceiro inverno de guerra sob a ameaça de uma ofensiva ainda mais destrutiva contra a sua infraestrutura energética, numa estratégia russa que pretende provocar apagões prolongados e quebrar a resistência da população. O episódio recente em que um gerador teve de ser ativado durante uma entrevista de Volodymyr Zelensky ao jornalista Luke Harding, do The Guardian, voltou a simbolizar a fragilidade do país perante os ataques constantes às redes elétricas e de gás.

Segundo o El Confidencial, este inverno abre uma nova fase da chamada “guerra energética”, acentuada por um escândalo interno que revelou a alegada apropriação indevida de cerca de 100 milhões de dólares destinados à proteção de centrais elétricas ucranianas. A divulgação do caso ocorreu enquanto milhares de residentes de Kiev e de outras cidades ficavam horas sem eletricidade, aumentando a revolta pública e intensificando a sensação de vulnerabilidade. Valeriia Radchenko, responsável de comunicação da ONG ucraniana ANTAC, afirmou que, no dia em que falou ao jornal, tivera apenas “seis horas de luz” na sua casa, sublinhando que o restante do tempo permaneceu sem qualquer fornecimento.

A chegada do frio tem sido acompanhada de ataques sucessivos, incluindo um bombardeamento de mais de cinco horas, no início de novembro, que lançou mais de 400 mísseis contra linhas ferroviárias, centrais de gás e redes elétricas. Houve ainda uma ofensiva anterior que deixou metade de Kiev às escuras durante quase todo o dia, obrigando à desconexão total da rede nacional por 16 horas para reparações de emergência. Este ano, ao contrário do que aconteceu nos dois invernos anteriores — quando a reconstrução rápida foi motivo de orgulho nacional — a Rússia parece concentrada em tornar a recuperação impossível, tendo já lançado mais de 2.000 drones e quase 200 mísseis contra o setor energético desde outubro. Com mais de 40% da capacidade de produção de gás perdida e quase toda a geração térmica destruída, peritos como Volodymyr Omelchenko alertam que o objetivo é “privar a população de eletricidade e aquecimento para forçar Kiev a aceitar um falso ‘acordo de paz’”.

A pressão aumenta também no plano diplomático, depois de Washington e Moscovo terem apresentado uma proposta de 28 pontos que ultrapassa várias linhas vermelhas para Kiev, nomeadamente a cedência do Donbass ou a limitação futura da capacidade militar ucraniana. Zelensky reconheceu que o país atravessa “um dos momentos mais difíceis da sua história”, descrevendo a situação como uma escolha entre “perder a dignidade” ou arriscar a rutura com um aliado essencial, ao mesmo tempo que enfrenta “um inverno extremamente complicado”.

No terreno, analistas alertam que Putin poderá estar a aguardar temperaturas de -20 °C para atacar subestações de 750 kV — cruciais devido à ligação direta às centrais nucleares — e causar um colapso total da rede. Omelchenko confirma que esses alvos já começaram a ser atingidos, apesar dos riscos de acidentes graves. Vários países europeus, incluindo a Alemanha, preparam-se para uma nova onda de refugiados “de inverno”, prevendo que muitos ucranianos não conseguirão sobreviver semanas sem luz ou aquecimento. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou que a estratégia do Kremlin visa “destruir a moral e quebrar a resistência”, ainda que insista que Moscovo “não alcançará o seu objetivo”.

A nova ofensiva energética acontece num momento de desgaste militar adicional, com avanços russos em Kupiansk, Pokrovsk e Zaporíjia. Mesmo assim, especialistas como Omelchenko acreditam que Moscovo não conseguiu capturar cidades relevantes desde o verão, prevendo apenas ganhos limitados no Donbass à custa de “dezenas de milhares” de baixas entre mercenários russos. Para já, a outra frente da guerra — a energética — ameaça deixar milhões de ucranianos no escuro, numa batalha que poderá definir não só o inverno, mas o rumo do conflito.

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