Rússia rejeita plano de paz de Trump para a Ucrânia e acusa Ocidente de criar uma “aliança de guerra”

A Rússia rejeitou formalmente esta quinta-feira o plano de paz de 20 pontos apresentado pela Administração Trump para pôr fim à guerra na Ucrânia, classificando a proposta como um documento que não visa a paz, mas antes a continuação do conflito.

Pedro Gonçalves
Janeiro 8, 2026
18:47

A Rússia rejeitou formalmente esta quinta-feira o plano de paz de 20 pontos apresentado pela Administração Trump para pôr fim à guerra na Ucrânia, classificando a proposta como um documento que não visa a paz, mas antes a continuação do conflito. Numa declaração dura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo acusou os Estados Unidos e os seus aliados europeus de estarem a promover aquilo que descreve como “uma verdadeira aliança de guerra”.

Segundo Moscovo, a proposta apoiada por Washington e por vários países europeus, que inclui garantias de segurança para a Ucrânia, está “extremamente distante de um verdadeiro acordo de paz”. O ministério sustenta que o plano “não tem como objetivo alcançar uma paz duradoura e a segurança”, mas sim “prosseguir a militarização, a escalada e o agravamento do conflito”.

Um dos pontos centrais da rejeição russa prende-se com a previsão de destacamento de uma força multinacional em território ucraniano após a cessação das hostilidades. De acordo com o comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, esse contingente teria como missão contribuir para a “reconstrução” das Forças Armadas ucranianas e “apoiar a dissuasão”, o que Moscovo considera uma ameaça direta.

Para o Kremlin, este elemento transforma o plano numa estratégia de consolidação militar ocidental, mantendo a Ucrânia armada e protegida por mecanismos semelhantes aos da NATO, apesar de Kiev não integrar formalmente a Aliança Atlântica.

Acordo paralelo assinado em Paris agrava tensões
A rejeição surge dias depois de os enviados de paz do presidente dos Estados Unidos, Steve Witkoff e Jared Kushner, terem assinado, em Paris, um plano adicional de cinco pontos com líderes europeus. Esse documento prevê o reforço das chamadas “garantias de segurança” para a Ucrânia caso seja alcançado um acordo para terminar a invasão russa, que se aproxima do quarto ano.

Entre os compromissos assumidos nesse plano suplementar estão a prestação de assistência militar de longo prazo a Kiev, a criação de uma força multinacional de manutenção da paz liderada por países europeus, o fornecimento adicional de armamento e a imposição de novas sanções em caso de um futuro ataque armado por parte da Rússia, bem como uma cooperação em matéria de defesa considerada “mutuamente benéfica” com a Ucrânia.

De acordo com o enquadramento apresentado, a rejeição do plano suplementar de garantias de segurança — cuja aceitação é considerada essencial pela Ucrânia — coloca em risco todo o plano de paz de 20 pontos promovido pela Administração Trump. Moscovo recusou igualmente a continuação da iniciativa conhecida como Prioritized Ukraine Requirements List (PURL), que permite aos países europeus adquirirem armamento fabricado nos Estados Unidos para abastecer a Ucrânia.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou ainda que o documento inclui cláusulas que visam uma maior integração entre os complexos industriais militares da Ucrânia e da NATO, algo que considera inaceitável e desestabilizador.

“Declarações militaristas” e alertas para a Europa
Numa das passagens mais duras do comunicado, Moscovo acusa a chamada “coligação dos dispostos” e o Governo de Kiev de estarem a criar uma estrutura perigosa para o continente europeu. “As novas declarações militaristas da chamada coligação dos dispostos e do regime de Kiev estão a formar uma verdadeira aliança de guerra”, afirma o ministério, acrescentando que os planos dos seus participantes se tornam “cada vez mais perigosos e destrutivos para o futuro do continente europeu e para os seus habitantes”.

Segundo a diplomacia russa, os cidadãos europeus estariam ainda a ser “forçados pelos políticos ocidentais a pagar essas ambições com o seu próprio dinheiro”.

No mesmo comunicado, a Rússia criticou duramente a apreensão, por parte dos Estados Unidos, do petroleiro Bella 1, mais tarde renomeado Marinera sob bandeira russa. Moscovo considera que a ação constitui uma violação grave da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982 e uma ameaça à liberdade de navegação.

“O uso da força em águas internacionais contra um navio civil só pode ser interpretado como uma violação grosseira dos princípios e normas fundamentais”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, sublinhando que a operação representa “uma infração material dos direitos e interesses legítimos do proprietário da embarcação”.

A Rússia alertou ainda que decisões deste tipo podem desencadear crises internacionais agudas e minar as normas globais que regem a navegação marítima.

Apesar das acusações russas, os Estados Unidos sustentam que a apreensão do navio foi legítima, alegando que o petroleiro violava o bloqueio imposto aos portos petrolíferos da Venezuela. Washington recorda também que não é signatário da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, argumento usado para justificar a legalidade da sua atuação.

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