Rússia mantém silêncio sobre protestos no Irão, mas continua a cooperação militar com o país

A Rússia manteve-se praticamente em silêncio durante quase duas semanas após o início de protestos em massa no Irão, optando por uma abordagem prudente enquanto avaliava a evolução da situação política interna no país aliado.

Pedro Gonçalves
Janeiro 15, 2026
16:48

A Rússia manteve-se praticamente em silêncio durante quase duas semanas após o início de protestos em massa no Irão, optando por uma abordagem prudente enquanto avaliava a evolução da situação política interna no país aliado. Só depois desse período é que Moscovo afirmou publicamente que “nenhuma terceira parte pode alterar a natureza fundamental das relações” entre os dois Estados, sublinhando a continuidade da parceria estratégica entre o Kremlin e Teerão.

Em declarações à Euronews, o analista político e especialista em Irão Nikita Smagin explicou que, desde o início das manifestações, a posição russa foi marcada por extrema cautela, com muito poucas declarações oficiais e, durante algum tempo, apenas ao nível da embaixada russa no Irão. Segundo Smagin, esta postura deveu-se ao facto de Moscovo estar a observar atentamente os acontecimentos e a ponderar a possibilidade de uma mudança de regime ou de alterações políticas profundas no país.

A primeira reacção pública mais clara surgiu através da porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, que comentou a situação quase 20 dias após o início da escalada dos protestos. Zakharova atribuiu a instabilidade no Irão àquilo que descreveu como a “pressão ilegal das sanções ocidentais”, defendendo que estas criam problemas económicos e sociais e alimentam a tensão interna. Na mesma intervenção, afirmou que a “tensão pública” estaria a ser explorada para “desestabilizar e destruir o Estado iraniano”, retomando a narrativa do Kremlin sobre alegadas “revoluções coloridas” promovidas a partir do exterior.

De acordo com Smagin, esta tomada de posição representou um apoio inequívoco da Rússia à República Islâmica, o que mostra a convicção de Moscovo de que as autoridades iranianas não enfrentam uma ameaça real ao seu poder. Para o analista, a repressão dos protestos levou o Kremlin a concluir que o regime está suficientemente sólido para justificar um apoio mais explícito, facilitando assim o aprofundamento das relações bilaterais.

Parceria estratégica marcada pela necessidade e pela desconfiança
A aproximação entre Moscovo e Teerão intensificou-se após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia. Há exatamente um ano, os dois países assinaram um acordo de parceria estratégica assente sobretudo na cooperação militar e económica, com especial incidência no sector da energia e em mecanismos destinados a mitigar o impacto das sanções internacionais.

Ainda assim, Smagin sublinha que Rússia e Irão não são aliados no sentido clássico do termo. Na sua análise, tratam-se antes de parceiros estratégicos unidos pela necessidade, num contexto de isolamento internacional e com um elevado grau de desconfiança mútua. O analista explicou que ambos operam dentro de um “corredor estreito”, o que confere estabilidade à relação, mas também limita o seu crescimento, observando que, apesar dos esforços desde 2022, os laços económicos pouco se expandiram e o volume do comércio bilateral registou apenas alterações marginais.

Existem, contudo, projetos em preparação para aprofundar esta cooperação. Entre eles estão acordos preliminares para a construção de novas centrais nucleares russas no Irão, a ativação do corredor de transporte Norte-Sul, a construção de uma linha ferroviária e o investimento russo nos sectores do petróleo e do gás. Estes projetos incluem ainda a ambição de transformar o Irão num centro de trânsito para o gás russo.

Cooperação militar em transformação
No plano militar, a cooperação entre os dois países intensificou-se desde o início da guerra na Ucrânia. A Rússia recorreu a drones iranianos Shahed para realizar ataques contra infraestruturas civis ucranianas, o que levou a União Europeia a impor sanções a responsáveis iranianos e ao fabricante destes equipamentos já em 2022.

Segundo dados citados pela Bloomberg, desde Outubro de 2021 — ainda antes da invasão em grande escala da Ucrânia — a Rússia terá adquirido mais de quatro mil milhões de dólares em armamento iraniano, incluindo mísseis balísticos. Smagin confirma que a cooperação militar continua a expandir-se, mas salienta que a sua dinâmica está a mudar.

A Rússia passou a produzir drones Shahed em território nacional, rebatizando-os como “Geran-2”, depois de ter adquirido a tecnologia ao Irão em 2023. De acordo com o analista, Moscovo conseguiu localizar grande parte da produção e avançou mesmo para o desenvolvimento de modelos próprios, o que reduziu significativamente a dependência em relação a Teerão. Smagin considera que o auge da importância do Irão como parceiro militar da Rússia ocorreu em 2022 e 2023.

Atualmente, a tendência começa a inverter-se, com a Rússia a procurar fornecer armamento ao Irão. Smagin referiu que esse apoio inclui equipamentos como caças Su-35 e helicópteros de ataque Mi-28, adiantando que há informações de que os primeiros helicópteros deste tipo terão chegado ao Irão durante o período dos protestos. Acrescentou ainda que existem referências a outros sistemas não oficialmente declarados, como veículos blindados Spartak, sistemas de guerra eletrónica e radares.

Apesar de o Irão se estar a tornar um destinatário cada vez mais relevante das exportações militares russas, Smagin sublinha que Moscovo não está a mobilizar toda a sua capacidade neste domínio, uma vez que o esforço de guerra na Ucrânia absorve grande parte dos seus recursos e limita a sua margem de manobra.

Apoio indireto ao regime iraniano
Apesar de recentes contratempos sofridos pela Rússia em países como a Síria e a Venezuela, Moscovo mantém capacidade para apoiar parceiros em dificuldades. Num artigo publicado na revista Foreign Policy, a investigadora Nicole Grajewski, do programa de política nuclear do Carnegie Endowment, defendeu que, no caso iraniano, a Rússia não procura uma intervenção direta, mas antes o reforço do aparelho interno de segurança do regime.

Nikita Smagin acrescentou que existem suspeitas de que sistemas russos de guerra eletrónica estejam a ser utilizados para bloquear ou interferir com o funcionamento do serviço de internet por satélite Starlink, de Elon Musk, durante os apagões de internet no Irão, contribuindo para limitar a capacidade de comunicação dos manifestantes.

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