Uma empresa russa de neurotecnologia iniciou testes em ambiente real com os chamados “bio-drones”, aves vivas equipadas com interfaces neurais implantadas e sistemas eletrónicos de orientação, uma inovação que, segundo a própria companhia, pretende responder a limitações operacionais dos drones mecânicos, mas que já está a suscitar preocupações quanto a eventuais utilizações militares.
A Neiry, empresa sediada na Rússia, anunciou em dezembro o arranque das primeiras experiências práticas com estas plataformas biológicas. Os ensaios envolveram equipas com escritórios no Dubai e em Moscovo, enquanto as avaliações de voo decorreram na Rússia e em países vizinhos.
De acordo com a empresa, o objetivo é explorar transportadores biológicos que consigam ultrapassar restrições típicas de drones convencionais, nomeadamente no alcance, peso transportado e autonomia.
Nos primeiros testes estão a ser utilizados pombos equipados com um pequeno controlador, painéis solares montados nas costas e uma câmara semelhante às usadas em sistemas de vigilância rodoviária ou semáforos.
A Neiry explica que o sistema não controla diretamente o animal, mas antes o “empurra” ou orienta suavemente para rotas pré-definidas, através de estímulos neurais. A empresa acrescenta que os dispositivos filtram detalhes identificáveis diretamente no equipamento, alegadamente para cumprir regras locais de privacidade.
No seu sítio oficial, a missão corporativa surge descrita sob o lema “Viva Homo Perfectus: avançar a próxima etapa da evolução humana com neurotechnologia”. O conceito de Homo Perfectus está associado ao transumanismo, corrente que defende o reforço das capacidades humanas e a superação de limitações biológicas através da tecnologia.
Especialistas alertam para potencial uso militar
Apesar de a empresa afirmar que a tecnologia se destina a serviços civis, como utilidades, logística, agricultura ou resposta a emergências, vários analistas consideram difícil ignorar as possíveis aplicações militares.
James Giordano, conselheiro científico do Pentágono e professor emérito de neurologia na Universidade de Georgetown, afirmou à Bloomberg que estes bio-drones poderiam, em teoria, ser utilizados para transportar agentes patogénicos para território inimigo, levantando cenários de guerra biológica.
As características naturais das aves — capacidade de voo prolongado, discrição e menor suspeição face a drones tradicionais — são apontadas como fatores que facilitariam missões de vigilância, transporte ou infiltração.
Experiências também em animais de pecuária
A Neiry revelou igualmente ter testado implantes de elétrodos em vacas, com o objetivo de estabilizar a produção de leite através da modulação do apetite, do stress e dos níveis de atividade.
Segundo a empresa, estes procedimentos são realizados numa unidade neurocirúrgica móvel, permitindo reduzir custos e encurtar o tempo de intervenção para cerca de 30 minutos por animal.
Financiamento e ligações políticas sob escrutínio
Investigações do T-Invariant, um órgão independente anti-guerra criado por cientistas russos, identificaram que um dos principais investidores da Neiry é a National Technology Initiative (NTI), uma organização não governamental russa estabelecida por decreto do então primeiro-ministro Dmitry Medvedev, sob instruções do presidente Vladimir Putin.
De acordo com o mesmo levantamento, o grupo terá investido cerca de 360 milhões de rublos (aproximadamente 4,7 milhões de dólares) em 2021.
Outros financiamentos estariam associados a fontes apoiadas pelo Kremlin, incluindo estruturas ligadas ao oligarca Vladimir Potanin, através do conglomerado Interros.
A empresa, no entanto, nega qualquer ligação direta ao governo russo.
Os ensaios colocam a Neiry na linha da frente de uma nova geração de soluções híbridas que combinam biologia e robótica, mas também abrem um debate ético e estratégico sobre o uso de animais vivos como plataformas tecnológicas.
Se por um lado a empresa apresenta a inovação como uma ferramenta para fins civis e científicos, por outro, especialistas alertam que a dualidade de uso pode transformar rapidamente estes bio-drones em instrumentos de vigilância ou conflito armado, num contexto geopolítico já marcado por elevada tensão.













