Um relatório do Royal United Services Institute (RUSI), um conceituado think tank britânico de defesa, afirma que a Rússia tem atualmente um “forte incentivo” para recorrer a armas nucleares mais destrutivas, à medida que os países ocidentais aumentam os seus arsenais de mísseis e reforçam as defesas aéreas.
“A estratégia nuclear russa parece estar num ponto de viragem”, indica a análise publicada esta terça-feira, sublinhando que Moscovo acredita que os avanços tecnológicos de Washington e da NATO podem reduzir significativamente a capacidade russa de lançar um ataque nuclear.
O documento acrescenta que o Kremlin avalia que as melhorias nas defesas aéreas da Aliança Atlântica podem comprometer qualquer estratégia de uso “calibrado ou dosado” de armas nucleares num conflito regional. Tal situação “cria um forte incentivo para empregar armas nucleares numa escala mais ampla do que a compatível com um uso dosado”, refere o relatório.
Contexto e alterações na doutrina russa
Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a retórica nuclear de Moscovo tem sido constante. Nesse período, o presidente Vladimir Putin colocou as forças de dissuasão nuclear em alerta máximo, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, admitiu poucos meses depois que o risco de conflito nuclear se tinha tornado “considerável”.
Em novembro de 2024, a Rússia atualizou a sua doutrina nuclear para permitir um ataque nuclear em resposta a uma agressão por parte de um país não nuclear, caso este seja apoiado por uma nação com armamento nuclear.
O relatório do RUSI surge num momento em que autoridades russas têm reiterado que o país já não se considera vinculado por restrições anteriores ao uso de mísseis nucleares e convencionais de curto e médio alcance.
Arsenais estratégicos e táticos
As armas nucleares estratégicas — intercontinentais, lançadas a partir de submarinos ou bombardeiros — estão limitadas pelo tratado New START, que expira no início de 2026. Estas são as que podem destruir cidades inteiras e ameaçar potências globais.
Já as armas nucleares táticas, com menor poder destrutivo e concebidas para uso em campo de batalha ou em teatros de operações específicos, são estimadas pelo Ocidente em cerca de 1.000 a 2.000 ogivas no arsenal russo. Os Estados Unidos terão cerca de 200, metade das quais estacionadas em bases europeias.
O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF), assinado em 1987 por Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov, proibiu mísseis com alcance entre 500 e 5.500 quilómetros. Porém, o acordo deixou de vigorar em 2019, quando Washington se retirou durante a presidência de Donald Trump, acusando Moscovo de violar os termos ao desenvolver o míssil 9M729 (SSC-8). A NATO também acusou a Rússia de incumprimento, algo que o Kremlin negou.
Na sequência do colapso do tratado, Moscovo anunciou que não iria colocar em serviço mísseis antes proibidos, a menos que os EUA fizessem o mesmo — uma moratória que, segundo declarações recentes, já não está em vigor.
Os EUA já deslocaram o sistema Mid-Range Capability para o norte das Filipinas, capaz de disparar mísseis de cruzeiro Tomahawk com alcance de cerca de 1.600 quilómetros. Por sua vez, Putin anunciou a 1 de agosto que Moscovo entregará mísseis balísticos de alcance intermédio Oreshnik à Bielorrússia até ao final de 2025, depois de testar o sistema contra a Ucrânia central em novembro do ano passado.
Especialistas da Federation of American Scientists — Jon Wolfsthal, Hans Kristensen e Matt Korda — escreveram no Washington Post em junho que “muitas das ideias mais perigosas da Guerra Fria estão a ser ressuscitadas: armas de baixo rendimento para guerras nucleares ‘limitadas’; mísseis de grande capacidade capazes de destruir múltiplos alvos de uma só vez; e o regresso de toda uma classe de mísseis anteriormente banidos e destruídos por tratado”.














