Rubio afasta cenário de invasão da Gronelândia e contradiz Trump sobre opção militar

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tentou esta semana desvalorizar a possibilidade de uma tomada militar da Gronelândia pelos Estados Unidos, contrariando declarações recentes da Casa Branca que mantêm essa hipótese em cima da mesa.

Pedro Gonçalves
Janeiro 7, 2026
11:35

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tentou esta semana desvalorizar a possibilidade de uma tomada militar da Gronelândia pelos Estados Unidos, contrariando declarações recentes da Casa Branca que mantêm essa hipótese em cima da mesa. Em intervenções junto de congressistas, Rubio garantiu que a referência ao uso da força armada não passa de retórica destinada a aumentar a pressão política sobre a liderança da Gronelândia e sobre a Dinamarca.

As declarações de Rubio foram reveladas esta quarta-feira pelo Wall Street Journal, que cita fontes presentes numa reunião à porta fechada realizada na segunda-feira à noite. O encontro juntou o chefe da diplomacia norte-americana, altos responsáveis da administração, incluindo o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Dan Caine, com membros da liderança do Congresso.

Segundo o jornal norte-americano, os comentários de Marco Rubio surgiram em resposta direta a uma pergunta colocada pelo líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer. O senador quis saber se a administração de Donald Trump planeia recorrer à força militar noutros cenários internacionais, incluindo o México e a Gronelândia, à semelhança da operação conduzida no passado sábado para capturar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

De acordo com as fontes citadas, Rubio terá afirmado que a tomada militar da Gronelândia “não é uma verdadeira opção”, servindo apenas como instrumento de pressão diplomática. Ainda assim, o Wall Street Journal sublinha que não é claro se o secretário de Estado estava apenas a tentar acalmar as preocupações dos legisladores democratas.

Administração Trump reforça discurso agressivo sobre controlo da Gronelândia
As declarações atribuídas a Rubio contrastam com o tom cada vez mais assertivo da administração Trump relativamente à Gronelândia. O governo norte-americano tem sinalizado, de forma recorrente, a intenção de persuadir a Dinamarca a ceder o controlo da maior ilha do mundo, sublinhando a sua localização estratégica no Árctico e a existência de recursos naturais ainda por explorar.

Na terça-feira à noite, a Casa Branca confirmou que está a discutir “várias opções” para adquirir o território semiautónomo dinamarquês, acrescentando que a via militar “é sempre uma opção”. Nem o presidente Donald Trump nem outros altos responsáveis da administração aceitaram, até ao momento, excluir publicamente o uso da força.

Em comunicado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “o presidente Trump deixou bem claro que a aquisição da Gronelândia é uma prioridade de segurança nacional dos Estados Unidos e que é vital para dissuadir os nossos adversários na região do Árctico”. Acrescentou ainda que “o presidente e a sua equipa estão a discutir uma série de opções para alcançar este importante objetivo de política externa e, claro, a utilização das forças armadas dos EUA é sempre uma opção à disposição do comandante-chefe”.

Aliados de Trump sublinham lógica negocial e não militar
No Congresso, aliados próximos do presidente tentaram alinhar-se com a leitura de Marco Rubio. O senador republicano Lindsey Graham afirmou na segunda-feira à noite que a postura da administração em relação à Gronelândia “tem tudo a ver com negociações”. Segundo Graham, o objetivo passa por garantir “controlo legal e proteções legais” que permitam justificar investimentos estratégicos e a presença de pessoal norte-americano no terreno.

Os Estados Unidos mantêm já uma base militar relevante na Gronelândia, e os tratados existentes com a Dinamarca e as autoridades locais permitem a movimentação de forças norte-americanas na ilha. Ainda assim, uma eventual invasão representaria um passo sem precedentes.

Fontes americanas e europeias contactadas pelo Wall Street Journal asseguram não ter identificado, até ao momento, sinais concretos de que a Casa Branca esteja a preparar uma invasão militar da Gronelândia. No entanto, a mera manutenção dessa hipótese tem provocado crescente inquietação entre aliados europeus.

Na terça-feira, vários países europeus membros da NATO divulgaram uma declaração conjunta em defesa da Gronelândia e da Dinamarca, alertando que um ataque norte-americano ao território constituiria, na prática, o fim da Aliança Atlântica. Uma ação desse tipo seria inédita, representando um ataque direto à soberania de um Estado membro da NATO por outro aliado.

Contactado pelo Wall Street Journal, o Departamento de Estado norte-americano não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre as alegadas declarações de Marco Rubio aos legisladores.

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