Um estudo internacional que analisa relatos de casos de cancro diagnosticados ou agravados após a vacinação contra a covid-19 foi publicado no início de janeiro na revista científica Oncotarget, poucos dias antes de a plataforma digital da publicação ter sido alvo de um ciberataque que deixou o site inacessível.
A revisão científica, divulgada a 3 de janeiro, foi conduzida por investigadores das universidades norte-americanas de Tufts, em Boston, e Brown, no estado de Rhode Island, e analisou dados já publicados em estudos e relatos de casos provenientes de vários países. Dias depois da publicação, o site da Oncotarget passou a apresentar erros técnicos, que a revista atribuiu a um ataque informático em curso, situação entretanto comunicada às autoridades federais dos Estados Unidos.
Na revisão, os autores analisaram 69 estudos e relatos de casos publicados entre 2020 e 2025, abrangendo dados de 27 países, incluindo Estados Unidos, Japão, China, Itália, Espanha e Coreia do Sul. No total, foram identificadas 333 situações em que um cancro foi diagnosticado pela primeira vez ou registou um agravamento rápido nas semanas seguintes à administração de vacinas contra a covid-19.
Os investigadores sublinham que nenhum país se destacou de forma dominante nos dados analisados, o que, segundo o artigo, sugere que os padrões observados surgiram em diferentes contextos geográficos. Ainda assim, os autores fazem questão de salientar que a revisão não estabelece uma relação causal direta entre a vacinação e o desenvolvimento de cancro, limitando-se a identificar padrões reportados na literatura científica existente.
Revista científica confirma ataque informático e contacta o FBI
Poucos dias após a divulgação do estudo, a Oncotarget tornou-se inacessível, apresentando uma mensagem de erro técnico do tipo “bad gateway”. A revista atribuiu a situação a um ciberataque e confirmou ter reportado o incidente ao FBI, referindo perturbações significativas nas suas operações online e no acesso a estudos recentemente publicados.
O FBI, contactado sobre o caso, afirmou que “não confirma nem nega a existência de qualquer investigação específica” relacionada com um eventual ataque informático à revista científica.
Antes de o site ficar totalmente indisponível, a Oncotarget publicou uma nota, entretanto inacessível, na qual referia dificuldades na disponibilização de novos artigos e alegava, sem apresentar provas, que o ataque poderia estar ligado à plataforma PubPeer, dedicada à revisão científica pós-publicação. A revista sustentava que o objetivo do ataque seria perturbar os seus servidores e impedir a indexação adequada de novos trabalhos científicos.
Autor denuncia censura e interrupção do acesso à investigação
Nas redes sociais, um dos autores do estudo, Wafik El-Deiry, investigador da Universidade de Brown, manifestou preocupação com o impacto do ataque no acesso à investigação científica. Numa publicação na rede social X, escreveu que “a censura está viva e de boa saúde nos Estados Unidos e entrou na medicina de uma forma grave”, acrescentando que o bloqueio do site impediu o acesso a investigação recentemente publicada.
Noutra mensagem, partilhada antes da queda do site, El-Deiry afirmou que a “censura da imprensa científica” estaria a impedir que informação publicada sobre infeção por covid-19, vacinas e sinais relacionados com cancro chegasse à comunidade científica e ao público em geral.
A plataforma PubPeer rejeitou qualquer ligação ao incidente. Em declarações ao Daily Mail, a organização afirmou que “nenhum responsável, funcionário ou voluntário da PubPeer tem qualquer envolvimento com o que está a acontecer naquela revista”. A PubPeer funciona como um espaço online onde investigadores podem comentar, de forma anónima, artigos científicos após a sua publicação, no âmbito da chamada revisão pós-publicação.
Tipos de casos analisados e padrões observados
De acordo com o estudo, alguns dos relatos incluídos descrevem o aparecimento de tumores próximos do local da injeção no braço, embora os autores reconheçam que os dados disponíveis não permitem concluir que a vacina tenha causado o cancro. Outros casos referem o reaparecimento súbito de cancros de crescimento lento que se encontravam estáveis antes da vacinação, bem como situações em que a administração da vacina pareceu reativar vírus associados ao desenvolvimento de cancro, como o herpesvírus humano 8.
Entre os estudos analisados encontram-se investigações com grandes populações. Um dos trabalhos citados, realizado nos Estados Unidos, analisou dados de 1,3 milhões de militares e identificou um aumento de alguns cancros do sangue após 2021, período coincidente com o início da vacinação em massa. Outros estudos incluíram uma análise de cerca de 300 mil pessoas em Itália e um estudo com 8,4 milhões de indivíduos na Coreia do Sul.
Nestes casos, foram observadas taxas mais elevadas de cancros da tiroide, cólon, pulmão, mama e próstata entre pessoas vacinadas, embora os resultados variassem consoante a idade, o sexo, o tipo de vacina e o número de doses administradas.
Diferenças por idade, dose e tipo de cancro
Os autores referem que pessoas que receberam mais doses ou reforços da vacina apresentaram taxas mais elevadas de alguns tipos específicos de cancro, como gástrico e pancreático. Os dados sugerem ainda que adultos com menos de 65 anos teriam maior risco de desenvolver cancros da tiroide e da mama após a vacinação, enquanto indivíduos com mais de 75 anos apresentariam um risco superior de cancro da próstata.
Apesar destes padrões, o estudo reforça repetidamente que os dados não demonstram uma relação de causa e efeito. Na conclusão, os investigadores defendem a necessidade de mais investigação aprofundada, escrevendo que “estes resultados sublinham a necessidade de estudos epidemiológicos, longitudinais, clínicos, histopatológicos, forenses e mecanísticos rigorosos, para avaliar se, e em que condições, a vacinação ou infeção por covid-19 pode estar associada ao cancro”.














