Por Nuno Matos, Diretor-Geral da Eco-Oil
À medida que nos despedimos de 2025 e entramos num novo ano, o setor energético inicia também um novo capítulo, com expectativas renovadas. Com o diploma que transpõe a RED III (Renewable Energy Directive III) para a legislação portuguesa finalmente definido, esta é uma oportunidade única para reforçar o compromisso ambiental e acelerar o caminho para a neutralidade carbónica.
Este enquadramento traz consigo um conjunto de eixos estratégicos capazes de colocar Portugal na linha da frente da transição energética europeia. Para além de metas setoriais ambiciosas, a RED III convoca um esforço coletivo acrescido, tanto em investimento como em capacidade de execução. Um bom exemplo é a meta de aumento médio anual de 1,6 pontos percentuais na incorporação de energias renováveis na indústria até 2030. Um objetivo exigente, sem dúvida, mas decisivo para acelerar a descarbonização de um dos setores em que esta transição continua a ser mais desafiante.
Somam-se ainda outros incentivos claros à redução da dependência externa, à valorização de recursos locais e à aposta em fontes de energia seguras, circulares e escaláveis – fatores essenciais para reforçar a autonomia e a resiliência do país. No entanto, embora seja evidente que o diploma poderá funcionar como uma bússola para orientar políticas públicas e investimentos, o seu verdadeiro impacto dependerá da ambição com que for implementado.
Na minha perspetiva, esta diretiva eleva a fasquia do compromisso nacional com a neutralidade carbónica. Mas o seu potencial está diretamente ligado à clareza e coerência da sua aplicação. Sem políticas abrangentes e uma mobilização efetiva de todas as partes, corremos o risco de transformar uma ferramenta estruturante num entrave à própria transição. Não por falta de visão, mas porque sem o alinhamento entre Governo, empresas e cidadãos, e sem mecanismos claros de implementação e acompanhamento dos resultados, até as melhores das intenções podem ficar aquém do impacto esperado.
É também fundamental garantir que a transição energética é pensada de forma abrangente, incorporando todas as soluções com impacto real num mix energético equilibrado. Tem sido relativamente consensual apontar a eletrificação e as energias renováveis como pilares centrais deste caminho – e são, sem dúvida, indispensáveis. Mas ainda não respondem de forma plena aos desafios de setores difíceis de descarbonizar, como a indústria pesada, o transporte marítimo ou a aviação.
Para estes contextos, existem outras soluções de baixo carbono, como é o caso de combustíveis reciclados e outros fuelóleos, que podem e devem desempenhar um papel complementar. Trata-se de opções com impacto imediato, seguras e tecnicamente viáveis, que permitem reduzir emissões em operações para as quais ainda não existem alternativas maduras ou economicamente acessíveis.
Estas soluções viabilizam uma transição gradual, enquanto continuamos a desenvolver as tecnologias que irão sustentar o sistema energético do futuro. Por isso, é fundamental que esta nova diretiva estabeleça critérios claros que distingam estas soluções e reconheçam o seu contributo específico. Quando colocamos no mesmo patamar alternativas com naturezas e impactos tão diferentes, acabamos por desincentivar aquelas que, no curto prazo, podem gerar reduções de emissões significativas.
O próximo ano pode ser decisivo para inovarmos com responsabilidade ambiental e consciência económica. A indústria atravessa um período crítico, em que precisa de conciliar a modernização de equipamentos, a integração de novas tecnologias e os custos reais associados à transição energética. Para que este processo seja justo, equilibrado e não comprometa a competitividade é fundamental reforçar o diálogo entre empresas, reguladores, academia e centros de investigação.
Precisamos de enquadramentos regulatórios que criem condições reais para que a inovação prosperar e que permitam que soluções com elevado potencial de descarbonização avancem em paralelo com as alternativas mais promissoras a longo prazo.
Se em 2026 queremos dar passos firmes rumo a uma sociedade neutra em carbono, então é essencial garantir que todas as soluções possam contribuir plenamente para esse objetivo. O progresso não se alcança escolhendo apenas uma frente, mas permitindo que todas avancem, alinhadas, na mesma direção.




