Autoridades investigam desde 2023 ex-secretário de Estado por suspeitas de corrupção

Antigo governante foi alvo de buscas e constituído arguido nessa operação, que culminou na acusação de 30 empresas e 43 suspeitos, entre os quais dirigentes de topo do Ministério da Defesa

Revista de Imprensa

O ex-secretário de Estado da Defesa, Marco Capitão Ferreira, está a ser investigado por suspeitas de corrupção desde julho de 2023 e o inquérito continua em curso. Segundo o ‘Diário de Notícias’, fonte judicial confirmou que o processo decorre há dois anos e meio, mantendo-se ativo no âmbito das averiguações relacionadas com a chamada operação Tempestade Perfeita.

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O antigo governante foi alvo de buscas e constituído arguido nessa operação, que culminou na acusação de 30 empresas e 43 suspeitos, entre os quais dirigentes de topo do Ministério da Defesa, como Alberto Coelho, antigo diretor da Direção-Geral dos Recursos da Defesa Nacional.

Em causa estão crimes de corrupção ativa e passiva, branqueamento de capitais, peculato e falsificação ou contrafação de documento, maioritariamente associados às contratações que levaram à derrapagem da despesa nas obras do Hospital Militar de Belém durante a pandemia de covid-19. Marco Capitão Ferreira é visado num processo autónomo.

O antigo secretário de Estado apresentou a demissão na sequência das buscas realizadas pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público, após ter sido noticiado que teria contratado um assessor fantasma quando liderava a holding das indústrias de Defesa, IdD – Portugal Defence.

Antes mesmo da operação policial, já tinham sido sinalizadas situações relacionadas com a sua gestão na IdD, sucessora da EMPORDEF, suscetíveis de levantar dúvidas quanto à regularidade de procedimentos. Entre os casos apontados está um diferendo de 3,6 milhões de euros com o Estado relativo a créditos da extinta EMPORDEF, cujo reconhecimento como passivo não foi inicialmente refletido nas contas.

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Outro episódio politicamente sensível envolveu um contrato entre a IdD e o Ministério da Defesa para a gestão do programa de seis navios patrulha oceânicos, no valor de cerca de 5,3 milhões de euros. O Tribunal de Contas considerou o contrato “fulminado de nulidade” e recusou o visto.

Entretanto, uma auditoria do Tribunal de Contas à IdD, divulgada esta semana e pedida pela então ministra da Defesa, Helena Carreiras, detetou um conjunto alargado de problemas, desconformidades e ilegalidades entre 2020 e 2022.

Segundo o ‘Diário de Notícias’, o Tribunal emitiu um juízo desfavorável sobre as demonstrações financeiras e orçamentais de 2022 e sobre a conformidade dos atos e contratos celebrados pela IdD – Portugal Defence nesse período. O auditor concluiu que as demonstrações financeiras não apresentam de forma verdadeira e apropriada a posição financeira da empresa, o seu desempenho, a execução orçamental e os fluxos de caixa no final de 2022.

Entre os casos destacados está a renovação do Palácio Bensaúde, em Lisboa, para acolher a nova sede da IdD. Em 2020, foram lançadas obras de adaptação no valor de 99.752,52 euros, acrescidos de IVA à taxa legal. O Tribunal de Contas refere que a holding ficou com uma única fatura relativa à empreitada, sem documentação que permitisse validar e controlar a despesa.

Em contraditório, membros do conselho de administração alegaram que os pagamentos foram efetuados no cumprimento do protocolo estabelecido e que houve fiscalização e verificação, limitando-se ao reembolso de custos suportados, sem remuneração adicional. Ainda assim, o Tribunal afirma não existir evidência documental na IdD que suporte essas justificações.

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Em 2021, foi aberto um novo procedimento para obras de adaptação no mesmo edifício, com um orçamento de 149.950 euros, acrescido de IVA. Marco Capitão Ferreira e os restantes administradores defenderam que, numa segunda fase, foram identificadas necessidades específicas relacionadas com requisitos funcionais e exigências de segurança, incluindo interações com o Gabinete Nacional de Segurança, e que todos os procedimentos de contratação constam dos arquivos da empresa.

O Tribunal de Contas, porém, considera que não ficou esclarecida a necessidade desta nova empreitada face ao protocolo estabelecido no ano anterior com a Direção-Geral dos Recursos da Defesa Nacional. Além disso, os serviços da IdD terão respondido desconhecer a existência de autos de medição que justificassem os pagamentos efetuados.

Para o auditor, registou-se ausência de fundamentação adequada da nova obra, falta de justificação para a não consulta ao mercado, ausência de evidência da execução e insuficiente confirmação do encargo financeiro.

Contactado pelo ‘Diário de Notícias’ para comentar as conclusões da auditoria, Marco Capitão Ferreira não respondeu. O relatório está agora a ser analisado pelo procurador do Ministério Público junto do Tribunal de Contas, que irá avaliar se existe matéria para eventual julgamento naquela instância.

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