Milhares de jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico continuam detidos há quase uma década em campos e prisões no norte da Síria, vivendo em condições precárias desde o colapso do chamado “califado” em 2017. Provenientes de pelo menos 70 países, muitos deles europeus, estes combatentes permanecem sem uma solução definitiva quanto ao seu julgamento ou repatriamento, num contexto de crescente instabilidade na região.
De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, os EUA, que até agora supervisionavam as prisões e os campos onde também se encontram esposas e filhos dos combatentes, pretendiam transferir parte dos detidos para centros mais seguros no Iraque. A iniciativa surge perante a recusa persistente dos países de origem em aceitar o regresso dos seus cidadãos para serem julgados por crimes de guerra.
Iraque aceita número limitado e ameaça execuções
O Iraque anunciou recentemente que aceitou receber um número reduzido de prisioneiros transferidos pelos Estados Unidos, estimado em cerca de 500 jihadistas. No entanto, Bagdade advertiu que não poderá acolher mais detidos e sinalizou que os suspeitos poderão ser rapidamente executados, incluindo por decapitação.
Segundo informações citadas pelo ‘ABC’, a comunicação através de canais diplomáticos levou Washington a suspender de imediato novas transferências a partir do norte da Síria e a pressionar novamente dezenas de países para que repatriem os seus cidadãos e assumam a responsabilidade judicial pelos crimes cometidos.
Sistema judicial iraquiano sob pressão
As autoridades judiciais iraquianas confirmaram a abertura de investigações a 1.387 suspeitos de pertencerem ao Estado Islâmico. Muitos destes processos resultaram, ou deverão resultar, em condenações à pena de morte, num sistema judicial marcado pela sobrelotação das prisões e pela rapidez dos julgamentos, prática que não é ilegal no país.
A ameaça de execuções em massa levou o Pentágono e o Departamento de Estado americano a travarem a transferência de prisioneiros da Síria para o Iraque. Ainda assim, os Governos estrangeiros continuam, em larga medida, a ignorar a situação e a rejeitar o repatriamento dos seus nacionais.
Campos sob controlo curdo e repatriamentos residuais
No campo de Al-Hol, anteriormente controlado pelas Forças Democráticas Sírias (FDS), encontram-se jihadistas de várias nacionalidades, incluindo sírios, iraquianos, franceses, russos e cidadãos da Ásia Central. Casos de repatriamento têm sido raros. Espanha, por exemplo, repatriou há pouco mais de três anos duas viúvas espanholas de combatentes do Daesh, juntamente com os seus filhos, mas essas situações permanecem excecionais.
Os processos legais são complexos e a obtenção de provas para julgamentos nos países de origem revela-se particularmente difícil, tendo em conta que muitos dos crimes remontam a acontecimentos ocorridos há mais de uma década.
Mudança de poder em Damasco aumenta risco de fugas
A atual crise agravou-se após a ofensiva lançada em dezembro pelo Governo instalado em Damasco contra as Forças Democráticas Sírias curdas. O executivo é liderado por Ahmed al-Sharaa, um antigo dirigente jihadista sunita que se apresenta como moderado e que tem procurado convencer a comunidade internacional de que não pretende restaurar um califado, mas reconstruir a Síria após 13 anos de guerra civil.
A recente derrota militar das FDS foi explorada por dezenas de prisioneiros do Estado Islâmico para fugir. Multiplicam-se os receios de que uma eventual retirada das forças especiais americanas da região de Raqqa e a transferência do controlo das prisões para Damasco possam desencadear fugas em massa.
Entre a execução no Iraque, a permanência em campos instáveis na Síria ou um improvável repatriamento para os países de origem, o destino de milhares de antigos combatentes do Estado Islâmico continua indefinido.














