Quem cala consente

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Executive Digest

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School           

 



Este dito português tem muito que se lhe diga. Na nossa sociedade existe não só o calar por indiferença, como o calar por medo e até pela força. Eu gosto de falar e trocar ideias, de ser livre no meu pensamento e no expressar do mesmo. Para mim seria muito difícil suportar um silêncio forçado. Mas infelizmente em muitos países é assim, as pessoas são obrigadas a calar por medo e opressão, embora haja sempre os corajosos que levantam a voz. Não é fácil, mas são estes que muitas vezes fazem a diferença e a mudança.

Infelizmente muita gente não fala e até é capaz de assentir com o que não concorda para salvar a pele. São os oportunistas que vão sempre na onda para estar bem com o status quo. Concordam com tudo e o seu contrário, argumentando que são pessoas muito flexíveis e que o seu pensamento vai-se adequando à realidade que está sempre a mudar e, por isso, exige novas ideias, ou seja, as ideias de quem está a mandar no momento. No entanto, há também os que acham que não vale a pena falar porque nada vai mudar. São os conformados da vida, praticantes da indiferença generalizada e que vivem isolados no seu mundo.

Depois de toda esta conversa, recomendo que leiam de novo o texto atrás e adaptem tudo à vossa empresa.

Agora que já perceberam a história, podemos falar abertamente. Existem dois grupos muito maioritários nas nossas empresas; os “yes men” e os que preferem não tomar qualquer posição.

O perigo dos “yes men” (indivíduos que concordam com tudo o que o seu superior diz) reside na criação de um ambiente de trabalho tóxico e pouco produtivo, onde a falta de pensamento crítico leva a decisões erradas, riscos ignorados e estagnação da inovação. Infelizmente estes seres abundam nas empresas e só têm uma finalidade na vida: concordar com o chefe e muitas vezes passam por cima do seu chefe para agradar ao chefe acima do dele. O problema é que é da natureza humana gostar que concordem connosco; faz-nos sentir bem. O problema é quando esse concordar não é mais do que – perdoem-me a expressão – “lamber as botas” ao superior hierárquico. Daqui resulta que os chefes, não tendo contraponto às suas opiniões, caminham alegremente no erro, tornando-se muitas vezes verdadeiros tiranos nas empresas. É assim nas empresas, como o é na política dos países. É da diferença de opinião que nasce a luz e da imposição da opinião que nascem as trevas.

Depois temos aqueles que preferem não dar opinião, seja a favor de uma solução seja a favor de outra. “Dizem-se imparciais, quando no fundo estão a tomar uma decisão: a decisão de não decidir”. Esta frase foi curiosamente proferida por uma das figuras mais icónicas do rock mundial: o baterista Neil Peart, da banda canadiana Rush. Considerado um dos melhores bateristas de todos os tempos também escrevia, entre outros, livros de filosofia.

Da mesma forma que numa empresa somos julgados pelas decisões boas ou más que tomámos no passado também deveríamos (e algumas vezes somos) julgados pelas decisões que NÃO tomámos no passado. Não decidir numa empresa, deixar ver o que vai acontecer, não querer arriscar a mudança foi a desgraça de muitas empresas nossas conhecidas nos telemóveis, na fotografia, entre outros. Por isso importa dizer que o ato de não decidir é uma decisão tomada conscientemente e, portanto, avaliável. É que verdadeiramente, quer no caso do “yes men”, quer neste caso anterior, quem cala consente.

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