A capacidade militar europeia, apesar de numerosa em efetivos, continua longe da dos Estados Unidos em termos de investimento, equipamentos estratégicos e coordenação entre países. O mais recente relatório The Military Balance 2025, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), revela um panorama detalhado das forças armadas dos principais blocos globais, incluindo os Estados Unidos, a China, a Rússia e a Europa como um todo.
Os Estados Unidos continuam a liderar, gastando anualmente cerca de 900 mil milhões de dólares em defesa, o que representa quase 40% do investimento global no setor. Historicamente, Washington tem mais do que duplicado o orçamento militar de todos os países europeus juntos – incluindo não só os Estados-membros da União Europeia (UE), mas também países da NATO como o Reino Unido e a Turquia. No entanto, após o primeiro mandato de Donald Trump, essa diferença começou a estreitar-se devido ao reforço do investimento europeu.
A Rússia, apesar de gastar menos em valores absolutos, é o país que mais destina recursos à defesa em relação ao seu PIB, atingindo quase 6%, enquanto a média europeia se mantém abaixo dos 3%. Com o aumento das tensões internacionais e a guerra na Ucrânia, vários países da UE têm vindo a reforçar os seus orçamentos militares.
Entre os países europeus, a Alemanha tornou-se em 2024 o maior investidor em defesa, superando o Reino Unido, que liderava este ranking há três décadas. Berlim alocou 86 mil milhões de dólares à defesa, enquanto Londres destinou 81 mil milhões. Em contrapartida, países como Espanha e Finlândia foram dos poucos a reduzir o orçamento militar entre 2023 e 2024.
Europa tem mais soldados do que os EUA, mas falta coordenação
A Europa dispõe de um dos maiores contingentes militares do mundo. No total, os exércitos nacionais dos países europeus somam 1,97 milhões de soldados, aproximando-se dos 2,03 milhões da China, que lidera globalmente. Os Estados Unidos têm 1,3 milhões de militares ativos, enquanto a Rússia mantém um efetivo de 1,1 milhões.
No contexto europeu, a Turquia destaca-se como o país com mais militares em serviço (mais de 350 mil), seguida de França, com mais de 200 mil. No entanto, a fragmentação dos contingentes entre múltiplos Estados-membros da UE e aliados da NATO dificulta a coordenação e a resposta unificada em situações de conflito.
Além dos soldados em serviço, a Europa dispõe de forças suplementares, como as unidades militarizadas das forças de segurança – a Gendarmerie francesa, a Guarda Civil espanhola ou os Carabineros italianos – que totalizam mais de 600 mil efetivos. Adicionalmente, conta com um impressionante número de reservistas, cerca de 1,7 milhões, que incluem antigos militares e civis voluntários.
Superpotências militares: equipamentos e capacidades
Apesar do elevado número de soldados, a Europa enfrenta desafios significativos no que toca ao equipamento militar em comparação com outras potências.
No que diz respeito a blindados e carros de combate, a Europa lidera em números, com a Grécia e a Turquia a assumirem um papel crucial na defesa do flanco oriental da NATO. A Turquia, em particular, possui mais de 6.400 veículos blindados, um número substancialmente superior aos 2.500 de França.
No setor naval, os Estados Unidos dominam amplamente, com 11 porta-aviões ativos – mais do que o dobro dos quatro existentes na Europa. Ainda assim, os países europeus possuem um número superior de fragatas e submarinos, com o Reino Unido a liderar com 10 submarinos, enquanto Espanha conta com dois (Isaac Peral e Galerna).
A supremacia americana é ainda mais evidente no domínio aéreo. Embora França, Turquia e Grécia tenham mais de 200 aviões de combate cada um, os EUA lideram em número de helicópteros militares e veículos aéreos não tripulados, essenciais para operações modernas.
O impacto da guerra na Ucrânia no investimento europeu
A invasão da Ucrânia obrigou os países europeus a reavaliar os seus investimentos militares. Segundo dados do IISS, entre os membros da UE, apenas Espanha e Finlândia reduziram o seu orçamento de defesa entre 2023 e 2024, enquanto nações como a Alemanha aumentaram os gastos em mais de 20%. Este aumento deve-se, em grande parte, à assistência militar prestada a Kiev.
Os Estados da UE que pertencem à NATO gastam, em média, 1,9% do seu PIB em defesa, mas há grandes disparidades entre países. Polónia, os Estados Bálticos e a Grécia destacam-se, superando os 3% do PIB. Espanha, por outro lado, está entre os que menos investem nesta área.
A NATO tem pressionado os seus membros para que cumpram o compromisso de gastar pelo menos 2% do PIB na defesa. Atualmente, 23 dos 32 países da Aliança já atingiram essa meta. No caso de Espanha, a estratégia do governo prevê um investimento de 1,32% do PIB em 2024 (cerca de 17.523 milhões de euros), com o objetivo de alcançar os 2% até 2029, o que exigirá duplicar o orçamento atual.
Dependência militar dos EUA e o futuro da defesa europeia
A capacidade de defesa da Europa sem o apoio militar dos EUA continua a ser um tema de debate entre especialistas. Ben Schreer, chefe da delegação europeia do IISS, afirma que, apesar das críticas da administração de Donald Trump ao nível de investimento dos aliados da NATO, “os Estados Unidos não afirmaram que vão abandonar a Aliança ou retirar tropas da Europa”. No entanto, Washington exige que os países europeus assumam uma maior responsabilidade nos custos da defesa.
A questão fundamental, segundo Schreer, não é apenas o montante investido pelos europeus, mas sim a falta de investimentos significativos ao longo das últimas décadas. “Se os EUA propuserem que os aliados da NATO aumentem o orçamento para 3% do PIB, alinhando-se com o esforço americano, demorará muitos anos até que isso seja concretizado”, explica.
Atualmente, a União Europeia gasta coletivamente 457 mil milhões de dólares em defesa. Ainda assim, muitos analistas questionam como é possível que, com esse orçamento, o bloco continue dependente da cobertura militar dos Estados Unidos para garantir a sua segurança perante ameaças como a Rússia de Vladimir Putin.














