Quer estar deitado 10 dias e receber 5 mil euros? A Agência Espacial Europeia tem um lugar para si

A experiência, que decorre na clínica espacial Medes, em Toulouse, França, visa analisar os efeitos da ausência de peso no corpo humano, proporcionando aos participantes uma compensação de 5 mil euros.

Pedro Gonçalves
Março 21, 2025
11:25

A Agência Espacial Europeia (ESA) está a recrutar voluntários para participarem num estudo científico em que terão de permanecer deitados durante 10 dias consecutivos. A experiência, que decorre na clínica espacial Medes, em Toulouse, França, visa analisar os efeitos da ausência de peso no corpo humano, proporcionando aos participantes uma compensação de 5 mil euros.

O estudo, denominado “Experiência Vivaldi”, encontra-se na sua terceira e última fase e pretende aprofundar o conhecimento sobre o impacto da microgravidade no organismo dos astronautas. A investigação contribuirá para o desenvolvimento de contramedidas eficazes que possam ser aplicadas em futuras missões espaciais de longa duração.

A ESA explicou, em comunicado, que esta fase do estudo envolve 20 voluntários do sexo masculino, divididos em dois grupos. O primeiro grupo é submetido a um protocolo de imersão a seco durante 10 dias, enquanto o segundo grupo permanece em repouso absoluto, deitado numa cama inclinada com a cabeça para baixo.

Como funciona a imersão a seco
A técnica de imersão a seco consiste em colocar os participantes em recipientes semelhantes a banheiras, cobertos por um tecido impermeável. Este método suspende os indivíduos na água sem contacto direto, criando um ambiente semelhante ao da microgravidade experimentada pelos astronautas no Espaço.

Durante os 10 dias de experiência, os voluntários permanecem em contentores especializados. As refeições são-lhes entregues através de tábuas flutuantes e, para garantir o conforto, utilizam almofadas de apoio para a cabeça. No que toca às necessidades fisiológicas, os participantes deslocam-se em carrinhos que mantêm a inclinação do corpo, permitindo a realização de testes científicos ao mesmo tempo.

Segundo Ann-Kathrin Vlacil, investigadora da ESA, esta abordagem já foi utilizada em experiências anteriores, nomeadamente com voluntárias do sexo feminino. “Ao prolongar a duração da imersão a seco e ao compará-la com o repouso na cama, estamos a aperfeiçoar a nossa compreensão de como estes análogos simulam a vida no Espaço”, afirmou.

Impacto da experiência no corpo humano
A vida no Espaço afeta significativamente a fisiologia dos astronautas. A ausência de peso provoca a perda de densidade muscular e óssea, alterações na forma dos olhos, deslocação de fluidos para o cérebro e outros impactos fisiológicos. A experiência Vivaldi pretende analisar detalhadamente estas mudanças, estudando respostas neurológicas, cardiovasculares e metabólicas, bem como flutuações hormonais, reações do sistema imunitário e a relação entre a visão e o sistema nervoso.

O investigador Marc-Antoine Custaud, da Universidade de Angers, em França, destacou a relevância da experiência Vivaldi para a medicina terrestre. “É essencial fazer a ponte entre os voos espaciais e a investigação em terra. As nossas descobertas têm implicações significativas para a medicina terrestre, particularmente em condições relacionadas com o envelhecimento”, explicou.

Com os avanços na exploração espacial e a crescente ambição de enviar humanos para Marte e para outras missões de longa duração, estudos como este tornam-se cruciais para garantir a segurança e o bem-estar dos astronautas. Ao mesmo tempo, a experiência pode proporcionar benefícios científicos para quem permanece na Terra, abrindo caminho para novas abordagens médicas e terapêuticas.

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