Que competências de Liderança são verdadeiramente críticas num Presidente da República?

Opinião de Fernando Neves de Almeida, Chairman & Partner da Boyden Portugal

Executive Digest
Janeiro 21, 2026
9:38

Com a primeira volta das eleições presidenciais em Portugal realizadas no passado fim de semana, muito se discutiu, como é natural, sobre os candidatos, desde os seus percursos políticos até aos posicionamentos ideológicos. No entanto, há uma dimensão menos debatida, mas absolutamente central para o cargo: a Liderança.

Importa, desde já, deixar um esclarecimento fundamental. Este não é um texto político. É, acima de tudo, uma reflexão sobre Liderança.

A figura do Presidente da República, tal como definida na Constituição portuguesa, é singular. Não se trata de um cargo executivo. Não governa no dia-a-dia, não define políticas públicas nem gere ministérios. Ainda assim, a sua influência sobre a estabilidade do país, a confiança dos cidadãos nas instituições e o rumo coletivo da nação é profunda. Precisamente por não exercer poder executivo direto, o impacto do Presidente depende muito das suas competências de Liderança. Quais são, então, as competências que mais contam? São muitas as que poderiam ser elencadas. Ainda assim, destaco três pela sua relevância no contexto atual.

1.A capacidade de unir e construir consensos

Um Presidente deve ser, antes de mais, uma figura agregadora. Num tempo marcado pela fragmentação política, pela polarização social e por uma crescente desconfiança nas instituições, a capacidade de unir torna-se crítica. Unir não significa apagar diferenças, nem procurar consensos artificiais. Significa, sim, criar espaço para o diálogo, reconhecer a legitimidade da diversidade de opiniões e construir pontes onde, à primeira vista, parecem não existir caminhos comuns. A estabilidade de um país não depende apenas de maiorias parlamentares. Depende, em larga medida, da sensação coletiva de que existe uma liderança capaz de representar todos, mesmo aqueles que não se reveem nas opções dominantes do momento.

2.Independência ética e imparcialidade

A liderança presidencial é frequentemente testada em momentos de pressão institucional, crises políticas ou conflitos entre órgãos de soberania. É nesses momentos que a independência ética do Presidente se torna visível (ou fragilizada). Manter a imparcialidade, respeitar os limites constitucionais e resistir à tentação de interferência partidária são competências essenciais para proteger a credibilidade do cargo. A confiança pública não se constrói com declarações, mas com coerência entre palavras e atos ao longo do tempo. Num contexto em que a perceção de integridade dos líderes é constantemente escrutinada, a ética deixa de ser um atributo abstrato para se tornar um verdadeiro ativo estratégico da liderança presidencial.

3.Visão para o país

Mesmo sem poder executivo, um Presidente influencia o rumo do país através da sua visão. Discursos, posicionamentos públicos, e silêncios ponderados contribuem para moldar o debate nacional. As sociedades não vivem apenas de gestão de curto prazo. Precisam de um horizonte. Precisam de uma narrativa que ajude a interpretar desafios complexos como a transição digital, as alterações demográficas, ou o papel de Portugal num mundo cada vez mais instável. Um Presidente com visão não impõe soluções, mas ajuda a colocar as perguntas certas. Funciona como uma bússola de longo prazo num sistema frequentemente pressionado por ciclos eleitorais curtos.

Naturalmente, estas não são as únicas competências relevantes. Comunicação, inteligência emocional, capacidade de escuta, são igualmente importantes. Ainda assim, unir, agir com independência ética e oferecer visão parecem-me ser pilares essenciais para um exercício presidencial sólido e respeitado.

No fundo, a questão central não é quem vence uma eleição, mas que tipo de Liderança o cargo projeta para o país. Porque, em última análise, a força de um Presidente reside menos no poder que detém e mais na confiança que inspira.

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