Pagar renda de casa, água e luz, comprar comida ou conseguir internet: de acordo com um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Interna, há 28,5 milhões de brasileiros obrigados a pagar a gangs para ter acesso a serviços básicos, sob pena de morrer ou ser torturado por uma organização criminosa. O problema, revelou o estudo, não afeta só as favelas, mas já chegou aos bairros de classe média.
O inquérito do Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Interna apontou uma subida de cinco pontos percentuais face a 2024: atualmente, 19% dos brasileiros vivem em áreas controladas por fações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital ou Comando Vermelho – um Estado dentro do Estado, e quem não pagar a conta arrisca uma morte violenta.
“Isso traduz-se na obrigação da população a adquirir alimentos, mercadorias, de um determinado fornecedor, indicado por esses grupos criminosos. Obrigam a população a contratar serviços de internet ou das suas empresas, que são de fachadas, ou de serviços clandestinos que elas oferecem”, salientou Leonaro Silva, investigador responsável pelo estudo, citado pela rádio ‘Renascença’.
“Vemos isso acontecer de maneira muito desigual no Brasil. Há grupos que atuam em determinados bairros e parte desse bairro é considerado favela, parte desse bairro tem saneamento urbano, residências e serviços que não se encaixariam nas favelas”, apontou Leonardo Silva, lembrando que 8% dos inquiridos admitiu que tem ou já teve familiares ou conhecidos desaparecidos – o investigador apontou que muitos dos corpos são escondidos em cemitérios clandestinos, onde não entra a polícia nem as autoridades.
“Existem alguns locais, que a população desses territórios acaba já sabendo que têm esse uso. Isso é a total ausência do Estado, porque essas fações assassinam e desaparecem com os corpos das vítimas, para que o Estado nem sequer saiba da ocorrência daquela morte”, sublinhou o investigador.
Por último, as chamadas “cracolândias”, mercados a céu aberto de venda e consumo de droga: 27% da população – 45 milhões de pessoas – garantiu que contorna estes locais no seu trajeto diário para a escola ou trabalho. A presença rotineira destes lugares ajuda a explicar o círculo vicioso de muitos jovens, que veem mais benefícios em continuar na rota do crime do que em estudar e procurar um emprego. “Acabam por ver na atividade criminosa uma forma de ter uma renda mensal que não seria possível de outra forma, de garantir muitas vezes um ‘status’, naquele território onde vivem. E, por mais que esses jovens resolvam deixar essa atividade, muitas vezes eles são impedidos também, com ameaças, violência física e mesmo execuções”, indicou.













