Por Mauro Gil, coordenador da Licenciatura em Gestão de Sistemas e Computação na Atlântica – Instituto Universitário
Vivemos numa época em que a tecnologia avança a uma velocidade sem precedentes, muitas vezes mais depressa do que a capacidade dos próprios utilizadores para a compreenderem e utilizarem de forma consciente. Nunca tivemos tantas ferramentas digitais ao nosso alcance e, simultaneamente, nunca estivemos tão expostos aos riscos associados à forma como as utilizamos no dia-a-dia.
De forma quase impercetível, a presença da inteligência artificial nas nossas rotinas diárias acelerou esta transformação, tornando progressivamente mais difícil distinguir o que é autêntico do que é falso e fabricado no espaço digital. Grande parte das pessoas já foi exposta a conteúdos falsos, gerados por ferramentas de inteligência artificial, sem se aperceber disso. Desde imagens manipuladas, passando por textos extremamente convincentes ou mesmo vozes artificialmente recriadas, imensos conteúdos adulterados circulam hoje com uma naturalidade que desafia a perceção comum. Este fenómeno não é apenas tecnológico, é profundamente social – interfere diretamente com a forma como confiamos na informação, tomamos decisões e interagimos online.
Neste contexto, importa esclarecer um ponto essencial: é verdade que a Inteligência Artificial tornou possível que os esquemas online se tornassem mais sofisticados, mas a boa notícia é que não são necessariamente mais inteligentes. As tentativas de engano, desinformação ou manipulação continuam a explorar os mesmos comportamentos humanos de sempre, como o medo, a curiosidade, o sentido de urgência ou o excesso de confiança. O que mudou foi a escala, a rapidez e aparência de credibilidade com que estes conteúdos são apresentados atualmente.
Apesar da evolução tecnológica, a maior vulnerabilidade na Internet continua a ser humana e não tecnológica. A segurança digital não depende apenas de sistemas mais avançados ou de legislação mais robusta. Depende, acima de tudo, da capacidade dos utilizadores para interpretar criticamente a informação que consomem e partilham.
Durante muitos anos, a literacia digital foi entendida, sobretudo, como a capacidade de utilizar ferramentas, nomeadamente pesquisar, comunicar ou criar conteúdos. Hoje, este conceito precisa de ser alargado às normas e comportamentos no espaço digital. A literacia digital é, cada vez mais, uma questão de segurança e envolve a capacidade de questionar fontes, reconhecer padrões de manipulação e aceitar que nem tudo o que parece real o é de facto. Num ambiente digital marcado pela incerteza, o espírito crítico e a cautela tornam-se competências essenciais.
É neste enquadramento que o Dia da Internet Mais Segura ganha particular relevância, não apenas como um momento de alerta para os riscos online, mas como uma oportunidade para promover uma mudança de atitude na relação com o digital. Promover a análise crítica da informação torna-se tão importante como ensinar a utilizar as ferramentas digitais. Não se trata de criar alarme, mas de desenvolver o pensamento crítico num ecossistema digital onde a inteligência artificial é capaz de imitar quase tudo.
A tecnologia continuará a evoluir e inevitavelmente a inteligência artificial fará parte desta evolução. O verdadeiro desafio passa por garantir que os utilizadores evoluem ao mesmo ritmo. Uma Internet mais segura não se constrói apenas com inovação tecnológica, mas também com cidadãos mais informados, atentos e preparados para navegar num espaço digital cada vez mais complexo




