Putin exige tudo do Donbass à Crimeia: Ucrânia arrisca perder territórios ocupados no acordo entre EUA e Rússia

Os Estados Unidos e a Rússia estão a negociar um acordo para travar a guerra na Ucrânia que poderá consagrar, de forma permanente, os avanços territoriais russos desde o início da invasão em 2022. A informação é avançada pela agência Bloomberg, que cita várias fontes com conhecimento direto do processo.

Pedro Gonçalves
Agosto 8, 2025
16:46

Os Estados Unidos e a Rússia estão a negociar um acordo para travar a guerra na Ucrânia que poderá consagrar, de forma permanente, os avanços territoriais russos desde o início da invasão em 2022. A informação é avançada pela agência Bloomberg, que cita várias fontes com conhecimento direto do processo.

De acordo com essas fontes, o plano em cima da mesa prevê o reconhecimento da ocupação russa da Crimeia e das regiões orientais do Donbass, que incluem Luhansk e Donetsk, bem como o controlo das zonas atualmente ocupadas nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson. A proposta estaria a ser delineada como preparação para uma cimeira entre Donald Trump e Vladimir Putin, que poderá acontecer já na próxima semana, com os Emirados Árabes Unidos apontados como local provável para o encontro.

As conversações ainda decorrem e os termos definitivos do entendimento permanecem em aberto. Contudo, fontes próximas indicam que a Rússia estaria disposta a parar as suas ofensivas em Zaporizhzhia e Kherson, embora continue a exigir que a Ucrânia abandone os territórios que ainda controla no leste. Isso implicaria que o presidente Volodymyr Zelensky tivesse de ordenar uma retirada das suas tropas e aceitasse um cessar-fogo nos termos ditados por Moscovo – algo que representaria uma vitória política e estratégica para Putin.

Tanto os EUA como a Rússia procuram o envolvimento da Ucrânia e dos aliados europeus neste possível acordo, mas a adesão não está garantida, alertam as fontes. Há também ceticismo entre responsáveis ocidentais sobre a verdadeira disposição de Putin em negociar um fim do conflito sem alcançar todos os seus objetivos estratégicos.

O presidente russo tem reiterado publicamente que a sua exigência inclui o reconhecimento da Crimeia como território russo, bem como a aceitação da neutralidade ucraniana e a renúncia à adesão à NATO. Putin declarou ainda em setembro de 2022 que as regiões ocupadas passariam a ser parte “para sempre” da Rússia.

Entretanto, Volodymyr Zelensky já reagiu à possibilidade de ser deixado de fora das negociações diretas entre Trump e Putin. “A Ucrânia não tem medo de reuniões e espera a mesma coragem da Rússia”, escreveu esta sexta-feira na rede social X (antigo Twitter), acrescentando: “É hora de pôr fim à guerra.”

Putin, por seu lado, declarou que não tem objeções a encontrar-se com Zelensky, mas que “ainda não estão criadas as condições” para uma reunião entre ambos. “Já disse várias vezes que não tenho nada contra isso em geral. Mas é preciso criar certas condições para isso. Infelizmente, ainda estamos longe”, afirmou o líder russo, citado pela agência Interfax.

A eventual trégua que está a ser preparada pretende “congelar” o conflito nos moldes atuais, servindo de ponto de partida para conversações técnicas sobre um acordo de paz definitivo. Ainda segundo a Bloomberg, o conselheiro de política externa do Kremlin, Yuri Ushakov, confirmou que os detalhes logísticos da reunião entre Trump e Putin estão a ser ultimados, com um local já acordado, embora ainda não tenha sido tornado público.

Este desenvolvimento surge após várias conversas telefónicas entre Trump e Putin, e depois de o enviado norte-americano Steve Witkoff se ter reunido cinco vezes com o presidente russo desde fevereiro. Apesar de ainda não ter adotado sanções diretas contra Moscovo, Trump tem usado tarifas aduaneiras como instrumento de pressão, duplicando, por exemplo, os impostos sobre produtos indianos devido às compras de petróleo russo por parte de Nova Deli.

A confirmar-se este acordo, a Ucrânia arrisca-se a ver formalizada a perda de parte do seu território soberano, num cenário que poderá ter profundas implicações para o equilíbrio de segurança na Europa e para a arquitetura jurídica internacional no pós-guerra.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.