As eleições presidenciais na Rússia vão decorrer em março e parece inevitável que o presidente em exercício, Vladimir Putin, vença o ato eleitoral. O presidente russo está no poder desde 2000 – tanto como chefe do Kremlin como primeiro-ministro – e se vencer novamente para completar um mandato de 6 anos, estará 30 anos no poder, mais tempo do que qualquer outro líder russo ou soviético desde o czar Pedro, o Grande.
Candidatos viáveis da oposição nestas eleições destacam-se pela sua ausência. Algumas figuras simbólicas, em grande parte leais a Putin, anunciaram que também estão a concorrer. De ‘concorrência’, apenas o líder do Partido Comunista, Nikolai Kharitonov, deverá obter muitos votos. Nas últimas eleições presidenciais de 2018, o candidato comunista ficou em 2º lugar, atrás de Putin (12% contra os 77% do presidente russo), lembrou a publicação ‘The Conversation’.
A alguns potenciais candidatos que pretendiam opor-se a Putin – e em oposição específica à guerra na Ucrânia – foi-lhes recusada, por motivos burocráticos duvidosos, a permissão para o fazer. No passado, as principais figuras da oposição na Rússia de Putin que questionaram a sua autoridade tenderam a ser tratadas com severidade.
O liberal Boris Nemtsov foi morto em 2015, fora do Kremlin, alegadamente por agentes ligados ao FSB de Putin. Outros críticos importantes, como Alexei Navalny e Mikhail Khodorkovsky, foram enviados para a prisão na Sibéria. Navalny continua encarcerado, mas Khodorkovsky está agora exilado em Londres.
Embora Putin possa, sem dúvida, envolver-se em algum esquema eleitoral para garantir que será reeleito por uma grande maioria, irá, no entanto, procurar ser apoiado por um mandato significativo. Ele quer que a eleição pareça ser uma votação livre e justa.
Ele precisa que as eleições sejam vistas como “limpas”, como forma de consolidar o seu legado como líder do Estado russo. Ele não quer que a história o lembre como um líder que só poderia permanecer no poder como ditador, frisou Rod Thorton, especialista do King’s College London.
No entanto, parece claro que será reeleito por uma clara maioria do povo russo, do qual costuma ter índices de aprovação muito elevados.
A ressalva, claro, é que os meios de comunicação russos patrocinados pelo Estado sempre apoiaram Putin e ‘pintaram-no’ de uma forma muito lisonjeira. Além disso, nos últimos anos, e especialmente desde o início da guerra de 2022 na Ucrânia, quaisquer meios de comunicação que criticassem Putin ou, de forma mais ampla, a política estatal foram severamente reprimidos ou mesmo forçados a sair do país: ou seja, a Rússia tem uns media totalmente nas mãos de Putin.
Putin também precisa de vencer, e vencer generosamente, para afastar quaisquer desafios ao seu Governo vindos da sua suposta base de poder. Desde que chegou ao poder, desenvolveu uma rede significativa de ligações de clientelismo, envolvendo pessoas de vários “ministérios do poder”, onde figuram políticos seniores, oligarcas e líderes militares.
Em essência, todos eles confiam para as suas próprias posições de liderança – e de criação de riqueza – no facto de a mão de Putin permanecer firme no leme do Estado russo.
Futuro de Putin pode estar em risco? Sim, mas…
Portanto, se o eleitorado transparecer que Putin não goza de apoio – e que, portanto, é um líder fraco -, então um número significativo dessas pessoas em posições de poder – os “siloviki” (homens fortes) – poderá sentir que têm de agir para manter uma estabilidade no Estado que sirva os seus interesses.
O que eles não vão querer é nada semelhante ao que aconteceu após as eleições presidenciais da Bielorrússia de 2020 – o então presidente Alexander Lukashenko quase foi destituído por uma onda de protestos devido a uma eleição de farsa.
Na verdade, o próprio Putin sofreu um choque severo em 2011, quando a mesma coisa aconteceu na Rússia. Milhares de manifestantes saíram às ruas de Moscovo e São Petersburgo após eleições aparentemente fraudulentas – Putin ficou abalado e a estabilidade do Estado ficou ameaçada.
Ele não pode permitir que a mesma coisa aconteça novamente. Assim, apesar de todas as tentações, precisa de manter as próximas eleições presidenciais tão aparentemente “livres” e justas quanto possível.














