O mundo ortodoxo, que segue o calendário juliano, celebrou o Natal esta quarta-feira, num contexto marcado pela guerra na Ucrânia e pelo papel político da Igreja Ortodoxa Russa (ROC). Segundo a ‘Euronews’, o patriarca Kirill, chefe da ROC e apoiante da invasão russa, felicitou os fiéis e afirmou que a Federação Russa não viola o mandamento de Cristo “não matar” na sua campanha militar.
O presidente Vladimir Putin participou das celebrações numa igreja situada numa unidade militar perto de Moscovo, rodeado por oficiais dos serviços secretos. No seu discurso, comparou os militares russos a enviados de Deus, cumprindo a missão de “salvar a Pátria e o seu povo”. Embora não tenha mencionado diretamente a guerra na Ucrânia, falou em “vitória”, reforçando a narrativa oficial do Kremlin de uma “guerra santa” e de defesa da pátria.
O patriarca Kirill justificou a invasão como combate a “ameaças morais”, incluindo as paradas de orgulho LGBTQ+, e instituiu a oração “Ó Santa Rússia” nas igrejas russas. Qualquer clérigo que contestasse esta linha, como o padre John Koval, foi afastado do seu ministério. A repressão atingiu outros líderes religiosos anti-guerra, incluindo John Burdin e Andrei Kurayev, privados das suas funções por discordarem das orientações oficiais.
Na Ucrânia, a Igreja Ortodoxa Ucraniana proclamou autonomia em relação ao Patriarcado de Moscovo, enquanto Kiev abriu mais de 200 processos penais contra representantes da UOC acusados de colaborar com Moscovo e desestabilizar o país. Recentemente, as autoridades ucranianas investigaram uma escola clandestina no mosteiro de Goloseevskyy, onde crianças eram instruídas em russo e com livros escolares soviéticos, envolvendo o Ministério da Educação ucraniano.
O conflito também teve repercussões sobre a celebração religiosa oficial. Em julho de 2023, o presidente Volodymyr Zelensky confirmou que o feriado de Natal seria celebrado apenas a 25 de dezembro, suprimindo a comemoração a 7 de janeiro no calendário juliano.
Na própria Rússia, a interpretação dos mandamentos cristãos foi adaptada à realidade da guerra. Kirill afirmou que as forças armadas russas na Ucrânia, ao combater o que consideram o mal, não violam o mandamento “Não matarás”. Entretanto, ataques militares russos atingiram locais civis e religiosos, incluindo o bombardeamento de Dnipro na véspera do Natal ortodoxo, com feridos e destruição de infraestruturas.
Desde o início da invasão em grande escala, 67 clérigos ucranianos foram mortos ou martirizados, e 640 locais religiosos destruídos, a maioria igrejas cristãs. O presidente Zelensky comprometeu-se a restaurar todos os locais afetados, denunciando o exército russo como uma das maiores ameaças aos crentes e às igrejas na Ucrânia.














